04 - PODER ORIGINÁRIO: PARTICIPAÇÃO – COOPERAÇÃO – INTERAÇÃO.

22/04/2013 07:52

Capitulo 04

RESUMINDO e CONCLUINDO

No portal da era numérica digital só podemos especular sobre o que encontraremos no seu âmbito futuro. Não há necessidade de mitificar esta nova era e muito menos naturalizá-la e esperar dela aquilo o que não pode fornecer. No entanto pelas amostras do presente é possível prever novas competências novos limites.

 

4.01 – a era da informática desconcentrada;  4.02 – a sincronia no caos;  4.03 – a unidade nacional e o discurso desenvolvimentista; 4.04 – a participação, a cooperação e a interação.

 

4.01 - A ERA da INFORMÁTICA DESCONCENTRADORA

Os equipamentos urbanos da era industrial nunca foram equacionados nas metrópoles brasileiras quanto ao seu preço e ao peso que recai nos ombros dos seus cidadãos. Multidões desavisadas, e sem formação para viver este meio industrial, não precisaram ultrapassar limites, muralhas e nem pagar pedágio para penetrar neste meio urbano. Marcados pela expulsão do campo foram se acumulando na precariedade urbana, atraídos por uma miragem e sem recursos materiais ou culturais para a nova realidade. Acomodaram-se penosamente diante da miragem e precariedade sustentada pela propaganda subliminar e pelo marketing de algo que não pertencia ao seu repertório ou cultura rural. Sem projeto maior do que a Natureza lhes oferecia, geraram favelas, mocambos e regiões já degradadas. Fixaram-se em áreas degradadas pelas atividades industriais comandadas pela obsolescência programada e instalados nas metrópoles brasileiras. Expostas à luz do Sol produziram chagas urbanas que cresceram e se multiplicaram em todas as cidades brasileiras. Esta falta de um projeto, de uma cultura e de uma mentalidade gerou corrupções e desvios de toda ordem. As suas energias, sem um projeto, sem uma cultura ou sem uma mentalidade definida, ameaçam silenciosa e permanentemente em se constituírem estados autônomos e diferentes no interior do Estado Nacional brasileiro. Incapazes de entender e muito menos comandar um sistema de produção e circulação de bens simbólicos estão a mercê e a espera que o Estado Central exerça este papel. Este Estado, sem uma delegação e muito menos um contrato usa para os seus interesses este sistema de relações objetivas entre diferentes instâncias definidas pela função que cumprem na divisão do trabalho, da reprodução e da difusão dos bens simbólicos. Desta forma este Estado está legitimado, diante destas energias descartadas e desqualificadas, para gerar a sua lei, executar o que é possível e avaliar com a sua própria justiça para tudo e para todos.

Contudo a própria justiça e compreensão deste processo alteraram-se profundamente na cultura ocidental. Compreensão cujo processo acelerou mudanças significativas a partir do pós Renascimento italiano, pelo maneirismo, pela reforma e pelas descobertas da Galileu Galilei. Este momento de flexão da História da cultura Ocidental foi registrado por Arendt (1983: 364) como:

 “a mudança havida no século XVII foi mais profunda do que uma simples ruína da ordem tradicional estabelecida entre o fazer e a contemplação. A ruína propriamente dita não concerne só a relação entre o fazer e o pensar, enquanto que a contemplação, no sentido original vinda da visão prolongada da verdade, foi totalmente eliminado. Pois a contemplação é outra coisa do que o pensar. Tradicionalmente, concebia-se essa último como o caminho principal, o mais direto, para a contemplação e a verdade”. 

Por mais que Galileu Galilei quisesse afiar, qualificar e potencializar o seu modo de pensar as suas descobertas não teriam sito comprovadas sem a sua luneta. Da mesma forma nova era da informação numérica digital encontra condições novas e uma ocasião única para fazer refluir esta compulsão linear, unívoca e concentradora da era industrial e com este refluxo a mudança em todo o processo da concentração urbana. Como resultado ela joga enigmas recorrentes e desestabilizadores que De Masi descreveu (1997: 228) como “na medida em que se admite que a criatividade é modernidade e decadência, não acumulação mas explosão emocional, afirmação de valores ao mesmo tempo a sua dissolução e desmoronamento de valores, o enigmo torna-se explicação”. Para estes desafios, enigmas e urgências a nova era da informação numérica digital oferece notáveis meios tecnológicos para fazer refluir estas energias acumuladas nestas metrópoles, para as sadias células municipais espalhadas em todos os recantos do imenso território brasileiro. O imenso território brasileiro, habitável do norte ao sul e do leste ao oeste, oferece condições para fugir ao ambiente degradado da era industrial. A nova infraestrutura oferece meios coerentes e superiores para todos e em todos os recantos da Natureza a ser recuperada. Basta pensar apenas no trator com ar condicionado e comandado pelo GPOS, no meio de lavouras brasileiras distantes dos meios urbanos degradados. Apenas um destes cenários mostra o conjunto de potencialidades para viver com qualidade em qualquer ponto do vasto território nacional. Historicamente basta pensar na fortuna da Marcha para o Oeste, na segunda metade do século XX e da qual Brasília é atualmente uma das expressões vivas e visíveis.

A busca da proximidade à Natureza não é um retorno aos meios entrópicos. A constante atualização da inteligência humana permite a interação entre o meio natural as maiores conquistas artificiais da humanidade. Isto se realiza num sistema de representação que para Ladrière (1977: 16):

 “compreendem os conjuntos conceituais e simbólicos através dos quis os diferentes grupos que constituem a coletividade tentam se auto interpretar e interpretar o mundo nos quais estão imersos, e também os métodos por meio dos quais a coletividade, em questão, se esforça em entender se conhecimentos e seu saber”.

Este sistema de representação acompanha e controla a circulação constante, entre Natureza e Inteligência. Sistema de representação que, coloca a realidade em permanente mutação, afetando tanto a mentalidade humana como os meios tecnológicos. O próprio trabalho em rede numérica digital magnifica e materializa no meio técnico que toda célula viva praticou a partir da primeira célula viva no planeta conforme Maturana e Varela afirmam (1996:39) que “os seres vivos reproduzem-se a partir das suas potencialidades, produzindo redes de reações que por sua vez determinam potencialidade e os seus limites”.

A rede numérica digital, conectada em tempo real como todo planeta, permite uma diferenciação no interior de uma unidade projetada e em constante mutação. Esta permanente mutação no interior de uma determinada unidade, visível em todo planeta, engloba também os ganhos da era industrial nas metrópoles urbanas. Se de um lado a massiva tendência em transformar e editar tudo em imagens a visão humana ainda guarda a intacta a instrumentalidade para o acesso da sabedoria que Aristóteles descreveu (1973: 211 Metafísica L.I cap. 1) como

 “não só para agir, mas até quando não nos propomos operar coisa alguma preferimos, por assim dizer, a vista aos demais sentidos. A razão é que ela é, de todos os sentidos, o que melhor nos faz conhecer as coisas e mais diferenças nos descobre”

 A imagem eletrônica pode ser diferenciada que permite fugir do padrão unificador, ao modelo do “tipo” único, linear e eterno. Assim ela provém basicamente do Poder Originário como do espetacular registro da queda inesperada da queda de um meteorito sobre o vasto território Rússia, em 15 de fevereiro de 2013, cuja imagem foi instantaneamente transmitida pra todo o planeta por observadores do Poder Originário eslavo, enquanto o poder central com suas agências espaciais estivera ausentes e nada previram[1].

Este Poder Originário trava luta permanente contra a imagem do tipo único e hegemônico na teimosia permanente do poder central em impor-lhe “sua” representação oficial. Luta crucial em  Chartier ao  destacar (1996: 79) como “a atenção sobre as estratégias simbólicas que determinam posições relativas e que constroem, para cada classe, grupo ou meio, um ‘ser percebido’ constitutivo de sua identidade”. Esta luta para um padrão unificador e totalitário também está presente e é visível nos núcleos urbanos inchados. Estes núcleos valem-se das estratégias simbólicas e reproduzem pelas atividades industriais comandadas pela uniformidade da obsolescência programada e instaladas em todas as metrópoles mundiais. Esta busca do ‘tipo ideal’ encontra cada vez menos adeptos e promotores. Ladrière aborda esta questão ao afirmar (1977: 204) que

 “é necessário perguntar-se, se na evolução moderna, o tipo de unificação das culturas tradicionais ainda é útil e se não é necessário pensar a unidade da cultura numa perspectiva muito diferente. Descartamos que a ideia de uma absorção pura e simples  do sistema  científico-técnico no sistema cultural tão bem com o contrário, e propomos de ver na ação a mediação concreta dos diferentes sistemas gerados por essa ação. Isto já indica que a unidade não pode ser uma unidade de composição, não de integração, pois ela não pode ser colocado antecipadamente na autossuficiência de um único sistema, mas deve ser reinventado a cada momento, a partir de diferentes  elementos de composição (tornados apenas compatíveis), na iniciativa sempre renovada da ação”.

A era da informação numérica digital favorece esta operação de reinventar a cada momento a partir de infinitos elementos. A infinita diversidade favorece a o processo de contornar os terríveis conflitos entre metrópoles localizadas em culturas arbitrariamente uniformizadas pela era industrial. Com a era pós-industrial o que importa, para De Masi (1997: 18-165-200), é:

 “reorganizar o tempo livre, a atividade artística e científica. Rever as estruturas e funções dos grupos empenhados no trabalho idealizador[...]Quando tudo possui máxima precisão, importa a aparência e a coerência das formas adequadas ao humano”.

Porém este projeto também permite colocar por terra tudo novamente, e ao mesmo tempo, por meio da pasteurização geral, a mitificação e a naturalização da cultura.

Para fugir e se libertar da armadilha dos eventos, do marketing e da propaganda, impõe-se a necessidade imperiosa da busca de sua identidade. Esta busca da identidade nacional também é crucial para a cultura brasileira. Contudo a sua busca está distante do Poder Originária. As classes dominantes dominam o campo de forças desta ‘fabricação da identidade nacional’. Na história da cultura brasileira Buzzar descreve (1997: 397) um contínuo de dominação de sua elaboração, que:

segundo Marilena Chaui, a busca da identidade nacional mostrou-se como uma preocupação constante das classes dominantes e da intelectualidade a partir de meados do século XIX. Essa busca perene expressou-se de forma diferenciada ao longo dos anos em função das questões político-sociais que a conjuntura de cada período determinava. Durante os anos 30 tal busca poderia ser sintetizada sob o slogan construir a nação, o que ainda segundo Chaui, teria permitido a absorção de todas as manifestações culturais pelo Estado.”

Este Poder Originário é, de fato, o destinatário secundário e eventual deste destilado proveniente das classes dominantes. Este constituem  um público de pares concorrentes que escrevem por tabela e subsidiariamente para o Poder Originário. Para Bourdieu, (1987: 108) o seu interlocutor “não é apenas o público, mas para o público de pares que também são concorrentes”. Esta classe procura valer-se dos aparelhos governamentais do Estado para reforçarem a sua posição por cima e por fora. Por meio deste Estado instrumentalizado absorvem e pretendem recobrir, os seus projetos, ações e avaliações com o maior número de manifestações culturais da nação. Com esta máscara pretendem arrebatar deste Estado projetos subsidiados e conquistado por meio de editais julgados pelos seus pares concorrentes. Pares concorrentes na aparência, mas, que de fato, respeitam e esperam, em contrapartida, iguais mordomias em próximas ocasiões

Fora do Brasil a era industrial concentradora como sinônima da felicidade urbana sob a proteção de um poderoso Estado instrumentalizado teve um aviso sinistro em Nova York. O episódio da derrubada das Torres Gêmeas e a perda do primeiro lugar do ranking da cidade mais populosa do planeta, fizeram com que os seus talentosos habitantes revissem os seus próprios conceitos. Conceitos que primeira era industrial impôs ao ser humano e que só se concretizaram para alguns felizardos que acumularam riquezas e deixaram a grande maioria da população no acostamento. Porém esta cidade estava preparada para a era da informação numérica digital e assim ela chamou de volta numerosas redes de empresas e se tornou a matriz de conglomerados econômicos espalhados por todo o planeta.

A força motriz da liberdade projetou para o século XXI as energias que estavam represadas pelo Muro de Berlim, pela hermética URSS industrializada ou pela Revolução Cultural da China maoísta. Liberdade como origem,  propulsor e reprodução de um modo de nova vida, de ambientes e de mentalidades. Nestes movimentos pode-se pensar numa espécie de teleologia imante e se materializando no Poder Originário. Teleologia imanente que Ladrière se deu conta ao escrever (in Bruyne 1977: 13) que

 “existe um processo de autocontrole e um processo de invenção dos critérios em termos dos quais esse autocontrole funciona efetivamente. Existe como que uma teleologia imanente da pesquisa, mas é uma teleologia que se constrói; não existe um “telos” colocado previamente, que regularia segundo um esquema invariável o devir da ciência, existe como que um processo de auto-organização, graças ao qual um procedimento de início tateante consegue desenhar de modo cada vez mais preciso seu próprio eixo de evolução.”

                 Numa visão de longa duração Bruyne percebe (1977: 13) que:                                                 “existe como que um processo de auto-organização, graças ao qual um procedimento de início tateante consegue desenhar de modo cada vez mais preciso seu próprio eixo de evolução”. Para que um grupo seja unido Pedro Luís Pereira de Souza afirma (1996: 96)[2] seja sustentado como por “uma estrutura flexível só pode sobreviver no tempo se um grupo relativamente homogêneo  a compreende como a própria base para o seu desenvolvimento”. Estrutura flexível que sustente a vida, os ambientes e as mentalidades por meio dos quais seria possível constituir um círculo de amizades sem patrulhamentos ou por intromissões indevidas de ideologias fechadas e mortas. Liberdade que promete uma vida em ambientes nos quais seja possível um constante pertencimento sem constrangimentos e a fuga do anonimato cinza urbano.  Este ideal Schiller buscava (1963: 105) na por meio dos ensinamentos da Arte e da educação estética, pois:

 “existe uma bela arte da paixão; mas uma bela arte apaixonada é uma contradição, pois o efeito inescapável da beleza é a liberdade das paixões. Não menos contraditório é o conceito de bela arte com ensinamento (didática) ou corrigidora (moral), pois nada é tão oposto ao conceito de beleza quanto dar ao espírito uma certa tendência”.                     

Nesta paixão pela liberdade existe o longo caminho do ‘ensinar’ e do ‘aprender’ que significa APRENDER na medida do ‘compreender’ e o seu efeito do ‘ter compreendido’. Nesta compreensão encontras a impossibilidade da volta ao campo e nem o fim das metrópoles. Apenas defende-se a necessidade de projetos e de intenções claras de quem avalia o seu preço, o paga e de quem carrega o seu peso de fato.

Esta prudência, proveniente da sabedoria, corre límpida desde a antiguidade clássica. Aristóteles já argumentava (1973: 345.1141a 10) que:

 “o conhecimento científico é um juízo sobre universais e necessárias. Assim sendo o primeiro princípio de que decorre o que é cientificamente conhecido não pode ser objeto de ciência, nem de arte, nem de sabedoria prática.. A sabedoria, nas artes, é atribuída aos seus mais perfeitos expoentes, por exemplo Fídias como escultor e a Policleto como retratista em pedra: por sabedoria, aqui, não entendemos outra coisa senão a excelência na arte”.

  O mestre de Alexandre Magno expunha assim, ao seu discípulo, a compreensão e a sabedoria necessária para as realizações de contratos, ou pactos, em constante avaliação e recomeço diário em função das perdas e ganhos, antes, durante e após qualquer ação coletiva. Se considerarmos a tecnologia, a mediação e a autonomia da arte necessita-se aceitar Gleizal quando afirma (1994: 48) que:

 “as tecnologias não agem sobre a arte que na medida em que elas produzem uma mediação e que designa o modo do funcionamento do político na arte política. Assim a mediação é um verdadeiro conceito que permite pensar a autonomia de uma arte social e política. Pela mediação, a arte se socializa, mas segundo mecanismos que lhe próprios. A arte abre-se ao político, mas sem aí se perder podendo pois agir sobre ele (o político)”.

  No universo da arte estamos diante da exaustiva enumeração enquanto na tecnologia nas normativas e leis. Enumeração característica da era pós-industrial, mas poderosamente ajudado pelas tecnologias comandadas pelos recursos numéricos digitais. Estas passam para o papel de mediadores. Porem esta mediação possui um sentido na medida em que sistematiza a diversidade e a riqueza da criação e a proporção humana oferece mananciais insuspeitos. Um dos campos nos quais flui gratuita esta mesma diversidade é o mundo das obras humanas. Entre estas obras de Arte Lemagny destaca (1992: 13) aquilo:

eu gosto, é o esplender das coisas. Existem coisas feitas pela mão humana, em relação aos homens, numa indiferença tão elevada e de um cumplicidade tão  muda como as coisas da natureza: são as obras de arte. Elas me ensinam a humildade e a fidelidade”.

Por sua vez a pensadora Hannah Arendt completa (1983:41)

a obra é atividade que corresponde a não-naturalidade da existência humana, que não está incrustada no espaço e da qual a mortalidade não é compensada pelo retorno cíclico da espécie. O obra fornece um mundo «artificial» de objetos nitidamente diferentes de todo o meio natural. É no interior dessas fronteiras que se aloja cada uma das vidas individuais, quando o mundo está destinado a lhes sobreviver e as transcender todas. A condição humana da obra é o pertencer-ao-mundo”.

Esta riqueza permite aproximar-se, tanto da vida comandada pela Natureza do meio rural como se conjugar com a vida urbana comandada pela abstração do ideal e da mentalidade humana que viceja e se renova em todas as épocas e lugares. Novamente Arendt intervém (1983: 228/9) e distingue “a produtividade específica da obra reside menos na utilidade que na sua capacidade de produzir a durabilidade”. O poeta Schiller conferiu (1963: 103) esta conjugação de antagônicos ao campo das energias da Arte:

 “se nos entregamos ao gozo da beleza autêntica, somos senhores, a um tempo e em grau idêntico, de nossas forças passivas e ativas, e com igual facilidade nos voltaremos para o grave e para o jocoso, para o repouso e para o movimento, para a brandura e para a resistência, para o pensamento abstrato ou para a intuição”.

Na História de longuíssima duração os ciclos antagônicos - da concentração e da desconcentração urbana - não constituem nenhuma novidade nas civilizações humana. Menfis, Babilônia, Atenas e da Roma Imperial são algumas destas experiências urbanas que se tornaram inviáveis e se dissolveram, pois a infraestrutura de sua origem e o modelo de sua administração não estava mais à altura do número dos seus habitantes. Isto sem contar os repentinos abandonos de cidades dos maias, dos incas e dos orientais que esvaziaram grandes metrópoles, no seu apogeu,  e nunca mais voltaram a serem habitadas por humanos.

4.02 - A  SINCRONIA no CAOS.

A entropia e o caos andam de mãos dadas em todos os horizontes humanos e da Natureza. No caos o próprio cientista encontra a sua matéria prima e o impulso para as suas descobertas. Diante do caos acontece uma tensão essencial no mundo ordenado do cientista que provoca nele a centelha da descoberta cujo processo Kuhn descreve (1997: 109) como:

“tal como os artistas, os cientistas criadores precisam em determinadas ocasiões, ser capazes de viver em um mundo desordenado - descrevi em outro trabalho essa necessidade como «tensão essencial» implícita na pesquisa científica”.

O cientista, tão bem o artista, sabe que a Ciência, ou Arte, são longas e a sua vida breve. Diante do imenso caos e a brevidade da vida Arendt escreveu (1983: 313)  que “a vida humana precipita-se em direção à morte e a ruina”. A consciência do sentido da morte constitui um dever moral para o pensador Bobbio (1997 cad.5 p.4 3ª col)  pois “acho um dever moral do homem que tem consciência do limite da vida levar a sério a morte. E levá-la a sério significa que a morte é a morte - e não um prolongamento da vida”. Porém este limite e a sua efetiva ultrapassagem revelam partes significativas de quem é o ENTE humano. Pois segundo Arendt, (1983: 253) “a essência humana – a essência de quem alguém é – só começa a existir quando a vida se vai, não deixando atrás dela senão na história”. O mesmo principio da permanência Argan descobre (1996: XXIII) “no fundo da cada obra clássica encontramos o pensamento da vida enquanto em cada pintura ou escultura informal  encontramos a morte”. Na perspectiva oposta Max Bense[3] afirma (1975 :118) que “a sua ação permite lembrar que ainda que o homem deva morrer, não nasceu para morrer, mas para renovação” .

 Esta ação que Schiller traduziu (1963, pp. 120/1) como:

a disposição é a fonte da liberdade, não podendo, portanto, dela nascer e ter origem moral.[...] A semente [da estética] irá ter pouco desenvolvimento onde a natureza pobre irá roubar ao homem o lazer. Onde, [a Natureza for] perdulária e o libertar de qualquer esforço, é onde a sensibilidade embotada não experimenta desejos e onde a violenta avidez não encontrar alimento. A planta amorável não irá nascer do homem troglodita, oculto em cavernas, eterno isolado que nunca encontra a humanidade fora de si, nem irá nascer nos grandes exércitos nômades, em que o homem é número e nunca encontra a humanidade em si”.

No domínio desta liberdade e humanidade os sistemas abertos e com energias soltas são potencializadas melhor pela lógica formal da informática numérica digital do que pelo taylorismo da era industrial. Nisto estes sistemas participa da teleologia estética. O pintor e gravador Carlos Oswald, escreveu (in Monteiro 2000: 191)[4] que nas artes:

“consolo-me com a seguinte frase de Degas: Hereusement que moi, je n’ai pás trouvé ma manière; ce que m’embêterais ! É isso mesmo: eu não tenho maneira, eu vou fazendo o que quero, sempre mudando e isso  me interessa. Tanto os acadêmicos como os modernistas veem a arte em si e a consideram como fim em si mesma. A arte deve ter um “fim”, além de sua técnica e se o “fim” for superior, isto é social ou religioso, então estas palavras: maneira, técnica, impressionismo, academicismo, cubismo, etc., desaparecem. Só fica a “ideia”, o apagamento da alma que sente não vê os meios que a fazem sentir”

O enciclopedista filosófico  espanhol Ferrater Mora inclui no sei dicionário (1994: 3460) que “entre as teorias estéticas teleológicas figuram: – a teoria baseada nas intenções ( e interesses) do artista; a teoria que explica a gênese da arte como uma atitude  fundamental humana e teoria que explica a  gênese da arte como um jogo”

O filósofo francês Jacques Maritain[5] asseverou (1964: 52) qu:

     “é necessário à perfeita descriminarão prática entre o fim do operário (finis operantis, como dizia a escolástica) e o fim da obra (finis operis): da tal maneira que operário trabalhe pelo seu salário, mas que a obra não seja regulada, formada e colocada no ser como um bem em si e não em consideração ao salário”.

A norma cientifica continua imperando a base desta lógica. Esta norma, como sistema aberto, foi descrita por Ladrière (in Bruyne, 1977: 16), pois:

de um ponto de vista lógico, a aquisição efetiva de um saber é comandada opor uma metodologia que obedece, ela própria, a uma norma diretora. Na realidade histórica de seu devir, o procedimento científico é ao mesmo tempo aquisição de um saber, aperfeiçoamento de uma metodologia e elaboração de uma norma

Esta trabalhosa e arriscada operação, da busca da norma num sistema aberto, para Ladrière (in Bruyne 1977: 13) acontece:

 “quando a reflexão sobre a ciência se organiza de maneira explicita, nada mais faz do que passar para a expressão o processo de auto finalização; é o que explica que as formulações que ela propõe possam ter um caráter normativo. A norma de que se trata que não vem de nenhum outro lugar senão do próprio processo pelo qual a ciência se constitui em seu devir histórico. Mas se pode falar de norma, é porque esse processo é, por si mesmo indicativo. Quando o procedimento epistemológico consegue refleti-lo, ele reencontra o eixo de progressão que se elaborou nesse processo e, ao mesmo tempo, descobre indicações relativamente precisas sobre a maneira pela qual o movimento poderá prosseguir”.

Com esta norma aberta, para a imaginação e para a criatividade, as energias mentais e físicas encontram no caos a matéria prima para os projetos possíveis e o espaço potencial para que a imaginação erga a sua criação.

O que deve assustar ao observador neutro não é a impossibilidade de acesso, a volatilidade e o desaparecimento do mundo transcendente e imaterial, mas a possibilidade do acesso irrestrito ao mundo empírico e material. Este mundo empírico autêntico e original está cada vez mais distante dos sentidos humanos graças às mediações, as edições e atravessadores tendenciosos. Este fenômeno da transcendência e a sua relação com o mundo dos sentidos humanos foi objeto de análise de Hannah Arendt que anotou (1983: 362):

“com o desaparecimento do mundo dado pelos sentidos, o mundo transcendente desaparece também, e com ele a possibilidade de transcender no conceito e o pensamento do mundo material...então não é surpreendente que o novo universo seja praticamente inacessível» mas ainda «nem mesmo pensável» pois «qual for a maneira pela qual pensamos, ela será falsa»”.

Na medida em que caos primordial continua a instigar os sentidos humanos,  o conceito e o pensamento podem ostentar as suas potencialidades. Mesmo que este conceito esteja diante dos mais severos instrumentos de planejamento, execução e avaliação matemática rigorosa conforme Bertrand Russel (in Arendt, 1983: 337)

 “se for possível demonstrar, que pode-se cercar de uma rede matemática, não importa qual universo, contendo muitos objetos [...] o fato é que o nosso universo se presta a um tratamento matemático, mas isto não tem grande significação do ponto de vista filosófico”.

Nestes ‘muitos objetos’ é possível ao ENTE humano elaborar do ponto de vista filosófico na medida em que o seu SER possui um núcleo solido e equilibrado colocado ente o imanente o transcendente. Este núcleo equilibrado e solido foi verificado por Piaget nas suas pesquisas e descreveu (1983  p.74) como confirmação do seu ponto de vista filosófico:

 “eu tinha chegado a duas ideias centrais segundo meu ponto de vista, que, aliás, nunca mais abandonei depois. A primeira é que todo organismo possuindo uma estrutura permanente, que se pode modificar sob influências do meio mas não se destrói jamais enquanto estrutura de conjunto. Todo conhecimento é sempre assimilação de um dado exterior a estrutura do sujeito. A segunda é que os fatores normativos do pensamento correspondem biologicamente a uma necessidade de equilíbrio por auto-regulação: assim a lógica poderia corresponder, no sujeito, a um processo de equilibração”.

Esta “equilibração” deriva do fato de que todo o organismo possui uma estrutura permanente que o meio modifica. A partir desta “equilibração” se aproximar e modelar o caos, conforme Mazzocut-Mis escreveu (1994: 64) que:

a imaginação, compreendida a imaginação divina, deve se submeter ao princípio cósmico-construtivo, ordenador e criador, que lhe permite erguer-se para além do caos desagregador da matéria no estado nascente. Da mesma forma, o artista deve modelar através da ação seu próprio potencial criativo para que a incoerência torne-se um contraste sensível para o espírito humano. A arte é um caminho que começa no sonho caótico e que termina num cosmos acabado, uma viagem interpretativa e constitutiva num claro-escuro continuado no qual não faltam nem tempestades e nem abismos”.

Marc Bloch também destaca (1976: 128) esta imaginação que “deve-se submeter ao princípio-cósmico – construtivo, ordenador e criador, que lhe permite erguer-se para além do caos desagregador da matéria no estado nascente”. A mesma energia  Mazzocut-Mitt, (1994: 64) percebe como aquela com a qual “o artista modela através da sua ação o seu próprio potencial criativo para que a inconstância torne-se coerência de imaginação e para que a contradição torne-se contraste sensível ao espírito humano”. 

A imaginação, aliada as ferramentas desta nova era numérica digital, encontra excelentes meios para aperfeiçoar toda a criação humana, combater a entropia e a racionalizar as energias contidas no caos. Energias competentes para operar aquém e além dos rígidos receituários da linha de montagem. Energias fluindo em sistemas abertos aliando imaginação e ferramentas. Caos eternamente no horizonte da potencialidade devido à imprevisibilidade inerente à ação humana. Neste caos as leis são impotentes e inúteis vistas pelo lado interno na ótica de Montesquieu, apropriado por Arendt ao registar (1983: 250) que:

as limitações da lei não oferecem garantias absolutas contra uma ação vinda do interior da nação, da mesma forma que as fronteiras do território não são salvaguardas seguras contra uma ação vinda do exterior [...] Se as limitações e fronteiras que se encontram em todos os estados podem oferecer uma certa proteção contra a infinidade, inerente a ação, elas são absolutamente impotentes contra a segunda característica  (da ação), que é de ser imprevisível”.

Primordialmente insiste-se para que estas energias diferenciadoras e libertárias tenham condições para fazer fluir as suas energias coletivas, inclusive para constituírem um grande organismo nacional, sem se confundir com ele. Estas energias primordiais mostram uma unidade espantosa quando aceitamos as observações dos biólogos Maturana e Varela quando escreveram (1996: 48) que

 “nós, como seres vivos temos uma história: somos descendentes, por reprodução, não só dos nossos antepassados humanos, mas de antepassados muitos diferentes que se estendem no passado até três milhões de anos. A outra é que, como organismos, somos seres multicelulares e todas as nossas células são descendentes por reprodução da célula particular que se formou ao unir-se um óvulo com um espermatozoide e nos originou. A reprodução está, por tanto, intrometida na nossa história em relação a nós como seres humanos e em relação a nossos componentes celulares individuais, o que curiosamente, faz de nós e nossa células seres da mesma idade ancestral. Mais ainda, desde um ponto de vista histórico, o anterior é válido para todos os seres vivos e todas as células contemporâneas: compartilhamos a mesma idade ancestral”

Nesta mesma idade ancestral comum a espécie humana possui uma origem, um rumo e uma possível ancoragem num patrimônio comum. Apesar de todo o aparente caos e desorientação,  o individuo, entregue a si mesmo, possui potencial para perceber no mundo pontual que o cerca aqui e agora. Percebero organismo nacional inclusive no qual este ser humano aparentemente isolado e único, possa sentir, conviver, modificar e qualificar o seu pertencimento esta História da espécie.  Pertencimento no qual persiste aquilo que Pierre Bourdieu denominou (1994: 99)  “habitus não é outra coisa do que a lei imanente, lex insita inscrita nos corpos por histórias idênticas, que á condição não só da harmonização das práticas mas também das práticas harmonizadas”

A lógica formal da concepção da cidadania, da democracia e do trabalho pede mais flexibilidade neste “habitus”. No grande organismo nacional as ações diferenciadas do “habitus” nacional impõe atenção, tempo e lógica para a convivência, eventuais modificações e para qualificações da era numérica digital, coerentes com o espaço e com o tempo. O objetivo é sempre instaurar, manter e reproduzir o processo civilizatório que no pensamento de  Mario Barata, (1997: 389) zela pela: 

“grandeza, a eficácia e a modernidade de uma instituição não são somente um êxito interno restrito, mas trata-se, sobretudo, da colocação em movimento das realidades da sociedade em que ela se formou e na qual procura agir e produzir valores úteis e vetores de conhecimento

Este processo civilizatório, sem estas necessárias mudanças não deixaria lugar para a Arte, pois todos e suas ações seriam monotonamente iguais e sem criatividade na concepção de Schaeffer (1992)[6]. Esta diversidade de pessoas e ações poderá ser transformada em complementaridade.

No entanto é necessário insistir que as novas energias previsíveis pelos instrumentos numérico digitais estão muito distantes de serem potencializadas e remetidas para um único e mesmo campo epistêmico. Bruyne, alerta (1977 p. 34) para as condições que se exigirá na medida em que estas energias queiram transitar e ser julgadas com Ciência:

“o campo epistêmico é o campo do conhecimento científico que chegou a um grau de objetividade reconhecido: estado das teorias, estado da reflexão epistemológica, estado da metodologia, estado das técnicas de investigação. A região epistêmica mais próxima de uma pesquisa específica é, evidentemente, a da disciplina do pesquisador na qual ele procede a escolhas teóricas, epistemológicas, técnicas, etc., no próprio seio do que a tradição dessa disciplina oferece.”

 Existem dúvidas até que ponto certas energias potenciais da era numérica digital, queiram fazer o vestibular da Ciência e submeter-se aos seus rituais de iniciação.  Um índice desta dúvida é indefinição do mercado face aos profissionais da Informática e que, por sua vez parecem pender mais para o lado dos profissionais da Arte. Até o presente estes profissionais continuam mergulhados num sistema de instâncias que, na concepção de Bourdieu (1987: 126),  são:

 “incumbidas de definir, conservar e consagrar um tipo de bens culturais e ao mesmo tempo, de produzir incessantemente novos produtores e novos consumidores dotados de uma disposição duradoura para que possam apropriar-se simbolicamente destes bens”.

No entanto estas instâncias não definiram o sistema e muito menos o normatizaram e conferiram um estatuto definitivo e canônico para estes professionais da informática, apesar de sua intensa atividade. Seguem o mesmo caminho dos profissionais da criatividade e do campo Arte dos quais se exige constantes novações de energias, intensos estudos, experimentações implementações para uma mudança permanente em relação ao seu dia anterior. Contudo já é possível constar que os professionais da informática são mais humanos e menos invasivos do que o bisturi do médico taylorista da era industrial.

No uso e na intervenção das ferramentas numéricas digitais é possível também seguir os passos de Bruyne (1977: 51) para aproximar o mais possível de uma

 “objetivação que é o conjunto dos métodos e das técnicas que elaboram o objeto de conhecimento ao qual se refere a investigação. Esse objeto é transcendente a toda consciência, só se dá ‘por esboços, sempre incompletos, mas sempre captados numa presença’. A ciência entre a linguagem e as coisas, insinua, exprime proposições, fala de acontecimentos incorpóreos, de fatos acontecidos às coisas corpóreas. A ciência não pode atingir as coisas, mas constrói, manipula, realiza, prediz os fatos, os acontecimentos efeitos que não existem fora das proposições que os exprimem. O que é próprio de toda operação de sentido, de linguagem”.

Esta objetivação da transformação das contradições em complementaridade entre o grande organismo nacional e a pequena célula política, social e cultural do município. Se expressa a crença de que a ferramenta numérica digital possui condições de transformar as contradições entre o grande organismo nacional e as pequenas células politicas, sociais e culturais do município. Esta crença nasce e é reforçada a partir de trabalhos já realizados e apesar da sua difícil tarefa no seu uso e subtil, mormente no que se  exige desta ferramenta em eventuais intervenções para transformar contradições em complementaridades.

Trabalhos com as informações que visem também transformar em complementaridade para o povo (Volksgeist) as contradições que ocorrem no âmbito dos três poderes e nas três instâncias. No que concerne ao espaço (Weltgeist) elas são recebidas no centro nacional fluem em rede na direção das macrorregiões dos estados regionais, passando pelas comarcas ate o núcleo municipal. Como num sistema impõe-se também o necessário fluxo inverso. O retorno ao vértice qualifica outras informações, as ordena e as redistribui hierarquicamente, até voltarem ao menor núcleo municipal. No concerne ao tempo (Zeitgeist) propõe-se a circulação diária de informações, por meio da INTERNET. As condições para as informações fluírem para o estado regional e deste para o Estado nacional e o seu feedback, necessita da sincronização de um tempo numa sequência da circulação do poder formando um sistema Este  sistema funciona 24 por dia e os 7 dias por semana

O imenso material das informações, das deliberações e das decisões a tomar, a partir destas informações,  são diárias e não podem esperar mais do que um mês. Com os meios numéricos digitais não é mais possível a procrastinação de deliberações e de decisões. As informações que pertencem ao âmbito da política brasileira não podem sofre solução de continuidade devido às distâncias entre a vida concreta e as decisões metropolitanas. Este sistema se renova e se completa, no mínimo, a cada mês.

Porém o seu teste efetivo encontra-se no feedback dado pelo receptor ao emissor. Para Umberto Eco (1995: 7) a posição e a disposição da relação entre o criador e o observador do receptor são determinantes. Disto ele mesmo foi testemunha quando declarou Eco, (1995, cad.5 p.7):

“se a «Obra Aberta» foi um dos primeiros livros a interrogar a posição e a atividade do leitor, foi porque, justamente, os músicos naquela época concebiam obras que deviam ser manipuladas, de alguma forma, pelo receptor para serem compreendidas”.

Na época do telégrafo já não havia mais nenhuma razão para barreiras administrativas devido às posições entre emissor e receptor, muito menos na rede dos meios de comunicação numérica digital. No ritmo, e com o auxílio dos instrumentos numérico digitais,  permita ao poder central deflagrar, a cada mês, o processo orientado por um tema relevante para este fluxo nacional e do qual pode receber um feedback objetivo no interior de um projeto específico e público. Preparando este projeto as propostas dos municípios ressaltam as questões mais prementes. Eles as enviam preliminarmente nas suas comunicações diárias ao poder central e as reforçam com os editoriais dos jornais.

Distribui-se em três semanas cheias - que cada mês possui como objetivo deste ciclo se completar em cada mês:

 

DOM

SAB

 

 

 

1

2

3

4

5    1ª semana cheia: MUNICÍPIO comarcas

12  2ª semana cheia:  ESTADO -região

19  3ª semana cheia:  FEDERAÇÃO

  26

27

28

29

30

31

 

 

Gráfico 06 – Calendário mensal da circulação do poder da origem até o vértice

 

O poder central destaca uma temática abrangente em cada mês. Busca a mais universal e única que remete como pauta de todo o processo, em todas as instâncias. Esta temática norteadora é tratada nas três esferas do poder interno do governo e expressa pelo problema que atravessa todo o mês.

A temática do 1° mês poderia ser, por exemplo, a natureza e as relações da sociedade civil organizada (Poder Originário) com o seu poder judiciário, do executivo e do judiciário. Esta temática seria tratada na sua homologia no município, no estado regional e na federação.

As múltiplas discussões procedentes dos mais diversos paradigmas presentes em cada célula municipal podem ser ordenadas por meio desta temática única, circulando em todas as instâncias. Isto não impede o surgimento de outras diferentes, urgentes e até contrárias e contestadoras do poder central que funciona como coordenador e as enviam para as instâncias específicas. Nestas instâncias estão as identidades sociais que Maturana, caracteriza (1996: 14) com a sua respetiva origem biológica e os potenciais dali derivados:

 “em cada sistema social conserva-se a identidade da classe de seres vivos que o integram. Assim, se os componentes de um sistema social são formigas, a identidade que se conserva na dinâmica estrutural do sistema social é a identidade formiga. Se os seres vivos componentes de um sistema social são médicos, a identidade conservada nos seres vivos  componentes de um sistema social são médicos, a identidade conservada nos seres vivos componentes desse sistema social durante a dinâmica estrutural é a de médico. Por essa razão, nossa individualidade  como seres humanos ‘invólucro’ a conservação da nossa vida na conservação de tantas identidades como sociedades as quais pertencemos. Por isso mesmo podemos deixar de pertencer a um ou outro sistema social sem necessariamente nos desintegrarmos como seres humanos”.

A atenta consideração e o efetivo respeito a estas identidades evita os discursos vazios[7] de um país vazio e utópico. Os agentes do executivo, legislativo e judiciário, possuem referencias nesta temática coletiva para ordenar o funcionamento dos respectivos mecanismos do Estado nacional. A ética do seu funcionamento se parece em muitos com a estética pois tanto a arte como a ética possuem o mundo como cenário. Ambas remetem ao «místico». Ambas buscam a felicidade. O teórico Richard Shusterman amplia (1992: 233/4) esta semelhanças a partir de Wittgenstein

“numa breve observação entre parênteses, na proposição 6.421 do Tractatus Lógico-Philosophicus, Wittgenstein afirma que  « ética e estética são uma só». A identificação de ética à estética ali parecem efetuados em nome de três considerações: Primeiro, as duas olham as coisas sub specie-aetrenitatis: «do exterior», « de tal maneira que elas possuem o mundo inteiro como cenário». Na estética, « a obra de arte é este objeto visto sub specie-aeternitatis. Segundo, a ética e a estética remetem ao reino do «místico», não só porque suas asserções (que não são proposições nem empíricas nem lógicas) remetem a o indizível, mas porque elas adotando essa perspectiva global que Wittgenstein associa ao domínio do místico. Terceira, todas as duas se ocupam principalmente da felicidade. Da mesma forma que «o ponto de vista estético sobre o mundo consiste essencialmente na contemplação do mundo por um olhar feliz» pois «arte é serena», da mesma forma a ética pode se reduzir a ser «feliz ou infeliz: eis tudo. Pode-se dizer: não existe nem bem nem mal»

Apesar de um texto soar como um mundo de contradições com os argumentos desenvolvidos até aqui, o dito acima permite também  complementariedades. É necessário afastar o perigo maior que é o da estetização da política e o fatal populismo marqueteiros e proselitista.  O Poder Originário, que se apregoa aqui contraria o misticismo e estetização, possui infinitos paradigmas e é constituído politicamente pela sociedade civil organizada. A sociedade necessita redobrar a atenção, mesmo que ela balbucie estes paradigmas num sistema de expressão.  Para Ladrière, (1977: 17)

 “os sistemas de expressão compreendem as modalidades tanto materiais como formais através dos quais as representações e as normas encontram suas projeções concretas, ao nível da sensibilidade, e graças as quais os efeitos profundos (nas quais toma forma a existência vivida, como maneira de provar a realidade natural e histórica) se exteriorizam em figuras significativas, oferecidas a uma constante decifração”.

Apesar deste sistema de expressão este mesmo Poder Originário deverá ser considerado de forma permanente pelo outros três poderes que nascem, representam e agem em seu nome.

Um destes instrumentos pode ser constituído pelos editoriais dos jornais e periódicos. Entende-se os editoriais dos jornais como textos fundamentais de cada  periódico e que explica, argumenta e justifica as razões da criação, circulação e manutenção de um órgão jornalístico publico. Um jornalístico possui os seus apoiadores e que os sustentam como assinantes. Estes assinantes e leitores contribuem o seu Poder Originário. Cabe á direção ou proprietário do periódico legitimar e expressar, nos seus editoriais, as razões e para coerência entre o seu pensamento e dos seus leitores e assinantes que mantem circulando este periódico. Se tal acontecer de fato este periódico merece toda a atenção dos poderes públicos municipais e conhecimento do poder central

 Os textos destes editoriais podem ser remetidos, sem custo, por meio de e-mails e ordenados pelo CEP no qual se localiza a sua redação. Os textos destes editoriais, reunidos, ordenados pelos respectivos CEP’s podem circular em todas as instâncias governamentais e trazendo as premências e o pensamento vigente no amplo território nacional. Evidente esta circulação irá depender de contratos entre os titulares e proprietários dos periódicos e o governo central. Novamente insiste-se no período de implementação, experimentação para atingir uma implantação posterior num sistema nacional.

O objetivo desta circulação permanente da informação é renovar o poder da nação tornando-o conhecido de todos (publicidade) e coerente com o seu tempo e o seu lugar (oportunidade). Numa nação a cultura enraíza e fixa as finalidades desta mesma nação. As palavras de Ladrière expõem isto ao afirmar (1977: 204) que:

“as duas funções essenciais de uma cultura são o enraizamento e a fixação de finalidades, são possíveis, nesta linha, dois grandes pólos de organização interna da cultura: o do sentido e dos projetos. O sentido é como o meio na qual a ação pode se elaborar, mas da qual ela também tem responsabilidade; é ao mesmo tempo aquilo que o sustenta e aquilo que é encarregado de fazer acontecer. Os projetos são os objetivos concretos, de maior ou menor alcance, em relação aos quais se mobiliza. Vistos na perspectiva do sentido, os projetos devem criar as condições que permitem à existência de atribuir-se um sentido, eles devem construir, de uma certa forma, os quadros de uma vida sensata”.

Resumindo e distinguindo sentido possui um caráter último sendo aquilo pelo qual uma vida se perde ou se salva. Já o projeto é sempre de ordem mais ou menos relativa pois ele é o projeto de projetos ulteriores.

Diante deste contínuo necessário tanto para o projeto como para o sentido de uma nação a circulação do poder central, necessita existir na sincronização diária e que precisa vivê-lo nas 24 horas, sete dias por semana e em todos os dias do ano. Seria um absurdo se as férias pessoais de agentes, ou as suas eventuais viagens, significassem a paralisação da circulação contínua do poder central desta nação.

A multiplicação de ministérios e ministros está longe de convencerem como sentido e projeto de uma nação.  Não ordenam este sentido do funcionamento do Estado nacional além de caro, revelou-se ineficiente para os projetos e sem garantia entre investimento e retorno. Na sua prática diária esta multiplicação de cargos apenas serviu acomodar forças que caso contrário poderia determinar a ingovernabilidade. Porém as suas funções se estorvam, se contradizem e permitem perigosas infiltrações que comprometem a meta final do bem comum buscado pelo poder nacional e a sua renovado dos mais variados setores o interior de um projeto a ser cumprido numa administração.  Na maioria das vezes este conjunto pede, ou impõe,  mais uma reeleição. A meta final do bem comum, buscado pelo poder nacional na sua raiz, necessita de dois Ministérios (Exterior e Interior). No seu desdobramento os demais nasceriam desta raiz. Os originários desta fonte trabalham hierarquicamente com a meta final do bem comum.

O ministério do Exterior necessita administrar, para além da fronteiras, a contradição, entre muitas, de que “uma das distinções que se pode estabelecer entre a «nação» e a «pátria» é que a «nação» tende a excluir as demais nações enquanto «pátria» tende a reconhecer a legitimidade das demais pátrias” na concepção de Le Goff  (in Vidal, 1997: 8)[8] Internamente as diversas secretarias nacionais são mais proveitosas do que múltiplos cabides de empregos e que engessam a governabilidade de um Estado. Cabide oportuno com o qual se contempla com cargos eventuais compromissos econômicos, políticos ou favores pontuais. O Ministério do Interior reúne as suas secretarias, no início de cada dia, quando os seus titulares recebem os informes competentes às suas pastes e provenientes de todos os municípios. Na reunião diária matinal, estes titulares, as conhecem, hierarquizam as discutem e tomam decisões coletivas. O Ministério do Exterior procede da mesma forma com as suas embaixadas, em vista ao concerto das outras nações. As tardes e as noites são reservadas para as ações visíveis e externas poderes centrais.

O consenso e a coerência matinal, alcançada pelo Executivo nesta reunião, necessita fluir diariamente para o conhecimento do Legislativo e do Judiciário com os necessários contraditórios e complementariedades de poderes soberanos entre si mas a serviço do Poder Originário. A sociedade civil organizada nos seus partidos constitui o 1º contraponto a este consenso e coerência interna dos três poderes. Nos partidos, as presidências nacionais, selecionam, orientam as questões e os põe diante dos seus respectivos programas. As bases partidárias deliberam, decidem e priorizam ações fundamentais da agremiação.

O cidadão necessita garantias de que a reflexão, os cargos, a ação que lhe cabem, serão significativos e integrantes de um dos poderes institucionais. Estas garantias começam pelo conhecimento, passam para a vontade e sob as luzes do direito ás suas respetivas competências e os seus limites. Nos limites, uma nova eleição, ou sua aposentadoria poderá retirar a este cidadão, a competência para a sua ação ou para falar em nome desta sociedade civil organizada. Assim os seus poderes não se confundem com o cidadão.

Um processo contínuo e ininterruptamente renovado impede os ministérios estarem ausentes destas reuniões diárias do poder central. Os eventuais titulares, ao assumir algum destes poderes, necessitam saber, contratar e ter anuência à necessidade. A sua presença física em outros centros de poder será remetida para os finais de semana. Porém o que move todo este conjunto de instrumentos, agentes estratégias e elementos logísticos é a busca de sua reprodução. Este o núcleo tanta da Natureza como da cultura humana. Hannah Arendt comentou (i983: 155) que:

a força da vida é a fecundidade. O ser vivo não foi esgotado quando ele providenciou a sua própria reprodução, e sua ‘mais-valia’ está na sua multiplicação potencial. O naturalismo coerente de Marx descobriu a ‘força do trabalho’ como modo especificamente humano da força vital tão capaz do que a natureza para ciar uma mais-valia, um além-produto”.

Para os biólogos Maturana Varela a reprodução (1996: 48) é “um além-produto específico da força vital humana”. Para Bourdieu (1987: 177) representa “a ‘força do trabalho’ é capaz de criar uma ‘mais valia’”. A continuidade de uma civilização e de uma cultura depende nas palavras de Hannah Arendt (1983: 314) que:

o milagre que salva o mundo, o domínio das atividades humanas, da ruína normal, «natural», é o fato da natalidade, na qual se enraíza ontologicamente a faculdade de agir. em outros termos: é o nascimento de homens novos, o fato de que eles começam novamente a ação que eles capazes por direito de nascimento.

A reprodução é a raiz  que permite transformar a contradição entre a unidade e a diversidade. Reprodução que torna contemporâneas todas as gerações humanas e espécies vivas da Terra pelo código genético de que são portadores.

 

4.03  - A UNIDADE NACIONAL e o DISCURSO DESENVOLVIMENTISTA[9].

Na cultura brasileira as palavras unidade de desenvolvimento possuem, na prática, sentidos quase antagônicos. O Brasil Colonial manteve a sua unidade garantida pela falta de desenvolvimento. Neste sentido o Alvará de D. Maria I não uma excrescência, porém a expressão pontual da lei geral. Nos raros momentos de desenvolvimento, os estados federados nacionais reclamam de exclusões e atentados à unidade nacional.

Diante deste impasse é bom possuir um repertório mais aprofundado do sentido de uma palavra num discurso. Para Hannah Arendt (1983: 235 e 266) a “palavra (lexis) adere mais estreitamente a verdade do que a praxis, segundo Platão[...]O sentido profundo do ato e da palavra não dependem nem da vitória nem da derrota, nem  de um desvio eventual, de nenhuma consequência boa ou má”. Ela esclarece em nota (1983: 235) que

“está claro que a afinidade entre a palavra e a revelação é muito mais íntima que entre a ação e a revelação [...] Se a ação e a palavra estão estreitamente aparentados, é que o ato primordial, e, especificamente humano, deve conter ao mesmo tempo a resposta e a pergunta colocadas aos recém chegados: «- Quem é você?»”

As palavras unidade e desenvolvimento foram termos constantes nos discursos dos agentes políticos brasileiros de todas as tendências ideológicas e com os objetivos e as formas as mais diversas possíveis. Estes favores foram relativizados por Umberto  Eco quando escreveu (1976: 228)[10] que:

“para o homem culto o fato de uma palavra estar ou não na moda não deveria influenciar o uso que dela se faz enquanto categoria científica, o que deve realmente constituir em elemento de indagação e preocupação é o problema do motivo porque, num determinada sociedade e num determinada contingência histórica, uma palavra ganha os favores da moda”                                                     

Neste antagonismo entre unidade e desenvolvimento acaba prevalecendo a lei da Física de que duas forças contrárias acabam por se anularem. Ou em termos populares ‘acabam em pizza’. Entre as numerosas evidências do sentido das palavras unidade e desenvolvimento é possível aprofundar os discursos separatistas da unidade nacional a favor de um imaginado desenvolvimento. 

O Sul do Brasil, separado do restante do atual país, é o discurso subliminar perceptível em muitas ocasiões em na retórica desenvolvimentista. Estes argumentos de que este Sul constituiria uma nação desenvolvida e progressista é um verdadeiro atentado à unidade nacional. Os norte-americanos enfrentaram pelas armas, na Guerra da Secessão, o mesmo discurso do desenvolvimentista nortista. Tato lá como no Brasil constitui um rime que atenta contra uma das conquistas e uma das heranças mais caras, seguras e inestimáveis das duas nações americanas.

 No argumento separatista existe um erro estratégico além dos muitos equívocos, neste atentado e crime. A Alemanha está pagando altíssimo para reconstruir a sua unidade nacional e retomar a sua maior conquista que vem de 1870. O desmantelamento da URSS retirou um poderoso opositor à cultura ocidental e um estímulo, não só para a nação americana, mas para todo o cenário mundial. O desmantelamento da URSS jogou o mundo ocidental num totalitarismo hegemônico de uma única potência e que pretende dar as cartas ao restante do mundo. Qualquer desmando, desta potência mundial hegemônica, poderá significar uma catástrofe planetária. O Brasil não possui nenhum sonho hegemônico. Mas se for transformado numa série de “repúblicas das bananas”, evidentemente que nenhuma destas repúblicas terá expressão planetária. A vontade política de um destes estados, que se opõe aos demais, e assim, inviabiliza os demais a, seria, ele mesmo, enquadrado por uma ou mais potências ou blocos econômicos e políticos. Num cenário político e econômico é possível imaginar-se este sonhado Sul do Brasil enquadrado pela Europa unida, ou pelos ”tigres asiáticos” e do Sudeste deste continente. O Nordeste do Brasil seria transformado num paraíso fiscal internacional, por exemplo. A Amazônia e o Centro Oeste seguiriam a política e a economia americana. Seria impossível sonhar num simples mercado comum neste cenário de um Ex-Brasil.

Esta fragmentação iria alastrar um cortejo de outros equívocos pela política, economia, cultural, racial e educacional. Uma profunda perturbação da consciência nacional, advindas de qualquer perda do menor fragmento do território nacional, arrastaria para um conjunto de conseqüências. Nenhum povo deseja repetir os exemplos históricos da possessão de Trafalgar, da Alsácia e Lorena, da Criméia, de Dantzig, de Trieste e das Malvinas para a Argentina. A autoimagem positiva estaria em jogo e a escolha de um ou mais lucros eventuais não seriam compensados pela perda da unidade nacional, em especial no jogo de blocos continentais contemporâneos.

A permanência da unidade entre o Grão-Pará, a Província Del´Rei no Sul e o Brasil, comandado por Salvador, pode ser considerado um efeito da lei da inércia política colonial lusitana. A inoperância da corte portuguesa e os interesses ingleses, em contar com um mercado único, mantiveram a atual unidade territorial brasileira. Contudo há necessidade de sair do leito do “deitado eternamente em berço esplêndido” em direção de uma intencionalidade e de um projeto construído por todos os meios para manter esta unidade nacional. O Brasil necessita seguir o exemplo da Europa e da Alemanha e pagar o alto preço econômico para reconstruir a unidade nacional e continental.

 As diferenças regionais são evidentes e preciosas. Mas a solução não é uma atomização sem  possibilidades de costuras. Uma colcha de estados soberanos não poderia e nem desejaria construir uma costura ao estilo do Commonwealth britânico. Os Farrapos depuseram as armas ao perceberem a pouca força teriam como país soberano, ao estilo do Uruguai. O Rio Grande do Sul como país soberano jamais poderia sustentar as onerosas campanhas para arregimentar, pagar e instalar colônias de imigrantes em ambientes hostis e inóspitos sem um efetivo e atuante poder central. A centralização pode representar, em dado momento maior potência, para acumular energia e maior fluxo de capital para retroalimentara todo o processo de uma forma contínua. O resultado prático é que o Uruguai possui, em 2013, apenas um terço da população do Rio Grande do Sul, apesar de territórios semelhantes[11]. Na contramão a centralização pode representar, em outro momento, oportunidade para ser assaltado e usado para fins imorais por grupos ou por indivíduos, como aconteceram também numerosas vezes nas republicas latino-americanos. Na busca de equilíbrio homeostático e de proporção entre o micro e macro poder, a vigilância é inadiável e perpétua. Esta vigilância não possui o objetivo de policiar, tutelar e extinguir esta tensão entre extremos. O critico da arte inglês, Herbert Read, escreveu  (1986: 32)[12]  que “no cerne da vida está o que as vezes é chamado de dialética, que simplesmente é uma contenda entre as forças positivas e negativas, entre o amor e a morte

As frágeis e micro células da política municipal necessitam a  vigilância, o equilíbrio e as costuras, em tempo real, no interior da macro célula nacional. A manutenção da macro célula nacional representa não só despesas. Num primeiro momento este processo terá, para a pessoa humana, uma fronteira física e um limite. Limites e fronteiras das quais este processo extrairá o seu significado nas suas próprias circunstâncias. Significado a ser  consolidado ao longo do  percurso em direção à centralização. Num segundo momento, e de forma distinta, encontrará a potência planetária no concerto das demais nações. O perigo que corre o poder no espaço planetário é cair num espaço sem gravidade e se perder no imponderável. Para tanto há necessidade do retorno imediato para a célula municipal de origem.

A proporção humana e as suas mudanças históricas são mais facilmente perceptíveis nos limites municipais. Esta proporção municipal pode ser usada melhor do que a estadual o federal, para correção de eventuais desvios de conduta[13]. Estando a célula municipal ativa e vigilante o conjunto nacional não corre o risco de ser dominado por uma única personalidade, como ocorreu nos regimes nazistas, fascistas, estalinistas ou maoístas.

A dialética entre atomização diferenciada e a unidade, só é possível em povos fortes, sadios e educados para o projeto da unidade nacional. A unidade nacional é essencial. A sua efetiva implantação é um projeto que paira acima de qualquer vontade política individual ou regional. Esta construção não pode ser realizada por meio de mitos, de alodoxia ou de “fake-lores”  inventados e repetidos até a exaustão. Uma narrativa  histórica necessita do que o diplomata e historiador Cabral de Mello diferenciava ao escrever (1995: 14) que “os amadores discutem estratégia, mas os profissionais preferem falar de logística, bem se poderia dizer que os historiadores  preferem  falar de documentos, deixando a outros o cuidado de descobrir o sentido da história”

Esta é razão pela qual se insiste que toda instituição digna deste nome tão bem como cada célula municipal possua um arquivo documental, não só de sua origem, como dos fatos correntes da atualidade. Nestes documentos é possível compreender os limites e as competências de uma célula municipal viva. Neste espaço logístico, que preserva a memória desta célula municipal, irá emergir em especial a teleologia desta comunidade e que escapa aos indivíduos isolados. Conforme Ferrater Mora, (1994: 3457) o termo ‘teleologia’ foi empregado por Wolff para designar a parte da filosofia natural que explica os fins (teloz = fim) das coisas para diferenciá-la da parte da filosofia natural que se ocupa das causas e das coisas. Só o nome é novo. A ideia mesma de uma explicação por meio dos fins é antiga. Entre os filósofos gregos podem encontrar-se em Anaxágoras, Platão e Aristóteles.  Com a proteção deste lastro logístico as lições sobre a célula viva de Maturana (1996 : 41)[14] são oportunas “a membrana da célula viva constitui ao mesmo tempo o seu limite e a abertura controlada das suas competência ao mundo externo”. O biólogo chileno evidenciou e reforçou algo antigo e evidente e fazem sentido nas guerras culturais entre outras células concorrentes e que buscam a hegemonia. A permeabilidade ao meio ambiente externo com o auxílio da membrana da célula, permite-lhe construir organismos complexos e funções diferenciadas.

O Brasil possui uma forma e um ponto de convergência que foi construído arduamente durante 500 anos. As suas células sociais vivas formadas pelas tribos indígenas e africanas, dos clãs orientais e dos gananciosos europeus.

- Qual a razão que o Brasil teria para jogar ao mar da inutilidade e do esquecimento este rico e diversificado patrimônio?.

Estas reflexões tornam-se desnecessárias se o cultivo EGO fosse realizado numa proporção adequada à realidade. Esta probabilidade foi vista por Arendt quando distinguiu (1983: 261) onipotência de potência, pois:

 “se a potência fosse acima de tudo aquilo que é possível na coesão, se pudéssemos a possuir como a força, aplicá-la como a energia no lugar de depender de acordos incertos e tão somente temporários entre um grande número de vontades e de intenções, a onipotência seria uma possibilidade humana concreta”.

Esta desproporção à realidade brasileira tem por efeito desmanchar no ar os sempiternos pais do futuro e das riquezas inesgotáveis. O Brasil continua vítima dos EGOS onipotentes, oniscientes, onipresentes eternos o aprisionam, e nas suas concepções estreitas e distorcidas. Reduzem toda a grandeza do território e a cultura nacional para a proporção dos seus pequenos e inflados EGOS. O seu interesse mesquinho e imaturo pretende dominar uma nação inteira para cultivar os seus pequenos interesses pessoais.

 

4.04 - A PARTICIPAÇÃO, a COOPERAÇÃO e a INTERAÇÃO.

O processo de equilíbrio dos pequenos e inflados EGOS é longo e penoso, numa proporção adequada e coerente com a realidade. A ontogenia humana passa por diversos estágios. Cada pessoa e cada geração necessita percorrer os estágios descritos por Jean Piaget (1896-1980). Ele caracterizou uma série de estágios da ontogenia humana onde se verifica maior ou a menor velocidade, maior ou menor sucesso neste processo de busca deste equilíbrio do EGO. A ontogenia humana condiciona e se refletem na escolha de instrumentos avançados da cultura humana. O “ENTE no SER” na expressão síntese de Marin Heidegger (1889-1976). Por isto nesta cultura humana há necessidade de um mínimo de coerência, na construção da sociedade, na qual vive a espécie humana.

O cientista suíço Jean Piaget realizou uma revolução silenciosa. As suas observações podem ser colocadas numa via de dupla mão. Numa tira dos ombros da frágil criatura humana a sua onipotência em face dos processos vitais nos quais ele esta mergulhado desde a sua origem até o seu final. Revolução que de uma forma geral é para Kuhn (1997: 122)  constituída por aqueles “episódios de desenvolvimento não-cumulativo, nos quais um paradigma mais antigo é total ou parcialmente substituído por um novo incompatível com o anterior”. O mesmo Kuhn continua “quase sempre, os homens que fazem as invenções fundamentais são muito jovens ou estão a pouco tempo na área de estudos cujo paradigma modificam”. A revolução silenciosa da qual Jean Piaget derrubou e venceu os mitos pedagógicos do bom selvagem ou do tipo ideal por natureza e do outro o mito de sua subordinação à ideologias, à crenças e predestinações alheias às competências e aos limites da criatura humana .

 Neste mesmo caminho das descobertas de Piaget, recrudescem as responsabilidades morais, científicas e estéticas, desta mesma criatura humana. Responsabilidade consciente tanto nas suas interações com esta mesma vida. Interações  tanto na sua origem, no seu desenvolvimento, na sua reprodução e também nos processos de sua entropia natural. Ele escreveu (1983: 38) em relação auto regulação:

a fecundidade particular das interpretações fundadas na auto regulação é que se trata de um funcionamento constitutivo de estruturas e não de estruturas já feitas no seio das quais bastariam procurar aquelas que conteriam de antemão no estado pré-formado tal ou qual categoria de conhecimento”.

 Piaget estabeleceu etapas gerais na gradativa transcendência (amadurecimento) da inteligência humana, observando diretamente o comportamento humano. Nos axiomas derivados desta sua observação objetiva da auto regulação o cientista estabeleceu cinco estágios definidos no âmbito deste evoluir contínuo e o desenvolvimento da inteligência humana auto regulada.

Na primeira etapa a criatura humana ordena o seu fazer no modelo animal, mostra a inteligência sensória-motora ou prática.  A superioridade humana sobre o animal é a quantidade de neurônios disponíveis.  A criatura humana, possui o potencial de 14 bilhões de neurônios (filogênese).

A inteligência humana eleva-se, na segunda etapa, do seu condicionamento animal, para atingir o mundo simbólico ou da fantasia do “faz-de-conta” e os símbolos substituem a realidade.

Na terceira etapa, a inteligência é intuitiva.  Nesta etapa parece que passa para o lado oposto, pois os fatos são aceitos pela  convicção afirmativa, numa visão unidirecional, sem exigência de prova empírica ou formal.

Na quarta etapa a inteligência torna-se operatória concreta.  Os objetos percebidos, são capazes de serem classificados, organizados em conjuntos matemáticos lógicos.  Conjuntos, séries, ordens, classes...atingindo assim a reversibilidade, desta lógica, para os objetos de sua origem.

Na quinta, a mais elevada das posições, está a inteligência operatória abstrata.  As operações reais são substituídas pelo uso formal da linguagem.  A criatura humana passa a operar através da “álgebra das operações” analisadas por Chomsky[15].

Apresenta-se, a seguir, um quadro, com base nas observações de Piaget, no qual analisam-se algumas destas relações da inteligência-socialização. É evidente que não se espera aplicar este quadro ao presente universo de estudo, mas ele não poderá ser omitido ou esquecido.



[2] - SOUZA Pedro Luiz Pereira de.  ESDI: biografia de uma idéia. Rio de Janeiro : EdUERJ, 1996.  336p.

[3]  - BENSE, Max. Pequena estética. São Paulo:  Perspectiva,1971, 225p+(2.ed. 1975).

[4]MONTEIRO, Maria  Isabel Oswald. Carlos Oswald (1882-1971): pintor da luz e dos  Reflexos. Rio de Janeiro: Casa Jorge, 2000. 229 p.

[5]  - MARITAIN, Jacques (1882 – 1973).  A Filosofia Moral.   Rio de Janeiro : Agir, 1964. 509p

[6]  SCHAEFFER, Jean-Marie . L’Art de l’Age Moderne. Paris : Gallimard 1992. 444p.

[7] - A norma científica serve para antídoto  para desencorajar, e evitar acalorados inúteis discursos vazios. Para tanto é bem sempre ter a mão as normas para um texto como em   http://en. wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Stub

VIDAL, Juan Carlos. « Le Goff: o desafio da mestiçagem» São Paulo:, Folha de São Paulo. ano 77 .nº 25.015,    28.09. 1999, cad. 5, p.8.

[9]  - Texto iniciado em 15. de abril de 1994.

 

[10]ECO, Umberto . Obra Aberta. São Paulo: Perspectiva, 1976, 284 p.

[12] - READ, Sir Herbert (1893–1968).  A Redenção do Robô. Meu Encontro com a Educação através da Arte. São Paulo: Summus, 1986. 158 p.

[13]  CORREIO do POVO «Detentos voltados a ações ambientais»  Porto Alegre: Correio do Povo ano 117 nº 241 – 2ª feira  28  de maio  de 2012 - Polícia p.2.

[14] CÈLULA VIVA MUNICIPAL:  é possível transportar da biologia para a célula municipal  a representação que “ a vida encontrou na organização da sua competência  e os limites da membrana constituindo uma unidade. Essa unidade é capaz de se reproduzir e ao mesmo tempo constituir na arde de outras células um organismo coerente e que por sua vez forma outra unidade” (Maturana, 1996a : 41). O político possui sua unidade competência e os seus limites municipais,  mas ao mesmo tempo possui a potencialidade de constituir um organismo institucional na qual soma e aumenta e sua autonomia”.

 MATURANA R., Humberto (1928-) e VARELA. Francisco (1946-). El árbol del  conocimiento: las bases biológicas del

         conocimiento humano. Madrid : Unigraf. 1996a, 219p.

----- La realidad: ¿objetiva o construida?. Barcelona   : Antropos, 1996b. 159 p.

[15] CHOMSKY Noam Os caminhos do poder: reflexões sobre a natureza humana e a ordem social. Porto Alegre : ARTMED 1998, 255 p