CAPÍTULO 02 - PODER ORIGINÁRIO

24/04/2013 07:43

 

LIMITES do PODER ORIGINÁRIO

 

Nos limites do Poder Originário busca-se controlar a coleta dos dados e contrastá-los e confrontá-los com a teoria. Neste polo técnico, não se garante  exatidão mas a enumeração a mais exaustiva possível nos limites de sua competência.

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2.01 – a sustentação do  poder originário;  2.02 – a ditadura na era da informática; .2.03 – a guerra social para contornar a guerra real;  2.04 – o projeto do poder originário;  2.05 – a participação popular;  2.06 – o povo como sinônimo de pobre e de desqualificado;  2.07 – muito cacique – pouco índio;. 2.08 – utopias generalistas como contratos sociais ocultos; 2.09 – a senha de identidade cidadã.

 

2.01 – A SUSTENTAÇÃO do PODER ORIGINÁRIO.

“A toda competência corresponde um limite

Clemente Mariani (1947)

Neste capítulo adiantam-se algumas crenças em soluções necessárias para a circulação do Poder Originário. Esta é uma tarefa do polo técnico que Bruyne descreve (1977: 360) como aquele que “controla a coleta dos dados, esforça-se por contrastá-los para poder confrontá-los com a teoria que os suscitou. Exige precisão na constatação mas, sozinho, não garante sua exatidão” Neste polo, com calma e paciência, é necessário ponderar o que o pesquisador Kuhn nos faz distinguir (1997: 78) entre descoberta e invenção nos quais “devemos agora perguntar como podem surgir tais mudanças, examinando em primeiro lugar descobertas (ou novidades relativas a fatos), para então estudar invenções (ou novidades concernentes à teoria)” No hipotético “quarto poder” encontram-se variadas formas, resistências e recusas em admiti-lo no mundo prático. Relativo este estudo de invenções do “quarto poder” é possível valer-se de Kuhn ao tratar da teoria derivada: quando afirma (1997: 185) que:

 “não pode haver nenhum sistema de linguagem ou de conceitos que seja científica ou empiricamente neutro, então, a construção de testes e teorias alternativas deverá derivar-se de alguma tradição baseada em um paradigma. A verificação é como seleção natural: escolhe a mais viável entre as alternativas existentes em uma situação histórica determinada”.

Neste rumo nos orientaremos pelos recursos técnicos provenientes das sucessivas descobertas do mundo numérico digital recém-instaurado. Nas invenções adiantamos novas formas de perceber, de cultivar e de reproduzir o Poder Originário. Invenções de novas formas para fortificar suplementar os habituais e consagrados “três poderes”. Invenções que visam transformar as contradições, as resistências e as recusas ao mundo numérico digital que tomam forma diante da era pós-industrial. Nas invenções é logico que os lideres mais atilados percebem num hipotético “quarto poder” abastecido ainda nas concepções vigentes na era industrial, tanto na sua definição, no seu suporte institucional como na sua reprodução. Toda a mudança assusta e causa as mais variadas reações. Só a possibilidade da existência de uma hipotética autoridade do “quarto poder”, assusta conceitualmente. Bloqueios e recusas em quem se encontra no exercício ou são favorecidos pelos clássicos e consagrados “três poderes” da era industrial. Contudo a era pós-industrial impõe mudanças ainda mais profundas e radicais do que aquele da concepção do “quarto poder” da era industrial. Esta possibilidade causa bloqueios e a consequente recusa liminar de qualquer mudança. Bloqueios e recusas que possuem o seu fundamento na cultura, nos hábitos e nos dos arraigados repertórios da era industrial e, mormente, um “quarto poder” que ainda não possui história consagrada como aquele da era pós-industrial. Estes limites são mais do que evidentes e até compreensíveis.

As variadas formas de um “quarto poder” e a falta de uma definição unívoca e linear, traz imensos problemas para a própria sustentação, exercício e reprodução do Legislativo, do Executivo e do Judiciário. Diante destes problemas compreende-se a procrastinação da definição, daquilo que constitui um “quarto poder”, ou, um constante titubeio, para admiti-lo conceitualmente. A procrastinação e o titubeio põem em jogo e evidenciam a cultura, os hábitos e os arraigados repertórios dominados no clássico tripé de sustentação da autoridade do período industrial. No contraditório a nova era numérica digital torna anacrônica e pouco eficaz a linha de montagem da era industrial. Além desta obsolescência programada a cultura da era industrial carregou-se de todos os parasitos imagináveis, além da sua obsolescência. O resultado é um Estado anacrônico e inchado no qual cada um dos três poderes luta para definir um “quarto poder” à sua maneira e que jamais coincidem ou encontram um ponto de contrato comum com os outros dois poderes.

Le  MONDE em 15.01.2013

Os FRANCESES e a CONFIANÇA em suas INSTÂNCIAS de GOVERNO. Nesta confiança não são medidas as tendências politicas nem nomes dos seus agentes. Percebe-se neste gráfico a nítida tendência declinante da confiança do cidadão francês em relação ás suas instâncias e aparelhos estatais. Porém está nítido que este cidadão ainda confia predominantemente na sua célula municipal.

http://www.lemonde.fr/politique/article/2013/01/15/la-defiance-des-francais-envers-la-politique-atteint-un-niveau-record_1817084_823448.html

 

Na era pós-industrial a “quarto poder” representará um ganho substancial na medida em que for neutro e estranho aos três poderes clássicos. Ganho na clareza das distinções das competências de cada um destes poderes. Clareza de distinções e competências que se torna possível por meio dos instrumentos numérico digitais. Uma escolha consensual irá constituir uma mudança  significativa para cada um dos poderes clássicos e ativos. Neste âmbito ele representa uma organização e uma estrutura independente, porém complementar aos três poderes. Numa leitura de Maturana e Varela encontra-se (1996: 40) a descrição da “organização das relações que devem dar-se entre os componentes de algo para que seja reconhecido como membro de uma classe específica. Entende-se por estrutura de algo aos componentes e relações que concretamente constituem uma unidade particular realizando sua organização”.

Nesta unidade particular que realiza a sua organização começa pela pergunta de quem irá sustentar este “quarto poder” e continua pela pergunta “se ele deve organizar-se por si mesmo”. Num estado contemporâneo existiriam poucas dúvidas quanto a este ponto. Este Poder Originário já existe.  A sua natureza legal e formal é exercida nos momentos em os constituintes são convocados.

Restam dúvidas em relação á sua origem, aos seus limites e competências. Na sua origem, se seguir o mesmo modelo do voto pontual e irreversível, repete-se o mesmo quadro das eleições de “eleitor = um voto”. Quanto aos seus limites nos quais este poder originário é colocada atrás da porta. Reduz-se a raros e distantes momentos de sua efetiva convocação e exercício. Quanto à competência a obra final deste tipo de “Poder Originário” vive com as variadas e constantes infiltrações provenientes de uma ou mais hermenêuticas. Hermenêutica ao sabor das mais variadas ideologias que comprometem e interpretam a obra dos constituintes. Competência também comprometida por uma cultura dinâmica e plástica que torna qualquer texto humano rapidamente anacrônico e incoerente com o novo tempo e lugar.

Estão ali as emendas e remendos de um texto legal de uma constituição concebida nas circunstâncias brasileiras do ano de 1988.  Este texto legal representa a soma de conhecimentos, de vontades e de direitos dos mais necessários ao bem coletivo desta época histórica. Mas o fluxo da vida, do poder e as suas circunstâncias são novas e inéditas e para as quais este texto histórico pouco diz ou significa.

O “quarto poder” encontra poucas forças desinteressadas e neutras para a definição da sua natureza, do seu papel e da sua forma legal.  No entanto, apesar deste limite, é necessário admitir liminarmente uma credibilidade suficiente para admitir a existência de uma soberania para o “quarto poder”. Esta necessidade admitida criará as bases de uma cultura para constituir este outro poder e que também irá vencer as dificuldades para encontrar formas desenhadas e ações coerentes com a sua neutralidade e respeito ao coletivo. Historicamente uma Nação organizada confia-se, de fato, a um Estado cujo governo organiza o poder em formas e ações coerentes com o coletivo. Esta coerência não nasce espontânea, mesmo que sejam por múltiplas e continuadas pressões coletivas. Há necessidade de uma centelha cuja força e coerência é construída no isolamento com a sua ideia. Arendt observou (1893: 215) que:

 “o isolamento é a condição de vida necessária à toda a maestria, que consiste em estar sozinho com a  «idéia», a imagem mental do objeto futuro. Semelhante maestria, de diversas das formas políticas da dominação, regula antes de mais nada as coisas, os materiais e não os homens. Com efeito, o mando dos homens é secundária no artesanato; na origem, as palavras «obreiro» e «mestre» eram empregadas como sinônimos. É somente parando, momento em que o seu produto está acabado, que o operário pode sair de seu isolamento”.

Compreende-se este isolamento tanto ao tempo da suspensão do juízo da “épokhé” antes do agir, como a atenção necessária e exclusiva ao longo da ação. Isolamento e atenção necessários antes dos contratos celebrados e coerentes com toda a educação formal preliminar[1]. Com esta falta de educação preliminar a sociedade civil organizada perde o seu papel de origem do poder. Com esta falta de educação preliminar ela não se habilita para um pacto e um contrato nacional capaz de dirigir, de manter e de reproduzir este tipo de poder atrofiado.

 O jogo do poder de uma Nação, na ausência de uma educação formal, não conhece competências e limites da autonomia tanto do Poder Originário com a quem delega o exercício administrativo.  Diante desta perda preliminar a necessitaria acordar para conferir um desenho para o trabalho a ser enfrentado no mundo da ação e da prática da cidadania. Entende-se por desenho aquela operação básica pela qual mundo mental designa aquilo  que deve acontecer no mundo material e empírico. O desenho ou ‘disegno’, constituía, no universo da Arte, a base dos mais diversos ofícios e que vinculavam as artes plásticas ao mundo das ideais através do ato da designação mental. Assim o desenho constituição  transito necessário entre a materialização de um projeto e daquilo de que ele realizar no tempo e no espaço. Segundo Pevsner (1982: 53)[2] os artistas da época de Miguel Ângelo qualificavam o ‘disegno’ como ‘ún signo de dio in noi’. Pevsner resumiu a importância que a  Academia de Giorgio Vasari conferia ao Desenho, ao registrar que era a disciplina que reunia os mais diversos profissionais, trabalhando em materiais diferentes e que procuravam infundir nesses materiais os conceitos e ideias que os animavam.

Uma sociedade civil possui no seu desenho de uma Nação para organizar as suas potenciais energias. No cenário contrário reina a  entropia, o caos comandada pela natureza que projeta ficar deitada ao sabor “Sono da Razão” e dormindo no berço esplêndido. Este “Sono da Razão”, é a ocasião que os mediadores e atravessadores do poder aguardam para interpretar, à  sua maneira, o que esta Nação deseja. A escravidão voluntária de uma sociedade é caracterizada pela falta de deliberação, de decisões em tempo e de uma efetiva ação autônoma. Ação autônoma que implica não só profundo respeito ao termo liberdade como para o sentido que este termo é portador. O prefeito de Roma e historiador Giulio Argan indica o caminho quando escreveu (1992: 40) que “a ação do artista não teria nenhum sentido, se não fosse livre. Os homens do poder  podem indicar-lhe o que fazer, mas não podem indicar-lhe a maneira de agir. A arte é um modelo do fazer segundo livres escolhas”.

Na época de mídia eletrônica é necessário admitir que o Poder Originário não possui uma imagem do seu próprio potencial no mundo da livres escolhas. Livres escolhas esmigalhadas e confusas que não conseguem se agregar numa imagem positiva de si mesmo e muito menos do potencial de liberdade de que é portador. O poder da imagem é inconteste para Goethe, ao afirmar (1945: 11) que ela “desce ao coração da matéria penetrando ali na realidade do mundo”. De outra forma Mazzocut-Mis acredita (1994: 64)[3] que:

“a imagem possui poder pois opera a substituição de uma força exterior na qual uma força não aparece a não ser para aniquilar uma outra força numa luta de morte, signos de força nos quais sinais e índices, que não possuem necessidade de serem vistos, constatados, mostrados depois contados e recitados para que as força, dos quais eles são o efeito, seja acreditada e com a imagem não se discute”.

 No plano da pesquisa e da identificação de uma agente, Bourdieu mostra (1996: 206) que “se recolhermos atos e ações de ator social surgirá uma imagem de sua imagem”. O mesmo sentido e vigor da imagem podem ser encontrados em Arendt (1983: 193) e Chartier (1998: 179).

As classes, as categorias e as instituições do Poder Originário, carentes da sua imagem identificadora, podem ser jogadas na heteronímia. O  desenho externo de uma imagem, alheia aos seus interesses, infiltra-se subliminarmente pelo construtivismo e formalismo, medeia, surpreende e aniquila a identidade. De um lado o Poder Originário caminha na busca de sua emergência, da sua “distinção e a reprodução deste desta cultural a procura de livrar-se a qualquer preço do anonimato e da insignificância” na concepção de Habermas (in Grespan, 1997: 8)[4]. Porém as classes dominantes conseguiram dialeticamente desenhar, ou projetar, outro mundo no qual foi riscada qualquer ameaça das classes depauperadas.  A ação de acordar a Nação desta alienação induzida e da escravidão assusta a qualquer um. Assusta tanto pela extensão como pelas consequências desta ação. Esta tarefa poderia redundar em mais uma demonstração de aprendiz de feiticeiro que ao não dominar a própria mágica. Para esconjurar este perigo há necessidade de recorrer ao processo de diferenciação das esferas da atividade humana que Hannah Arendt anuncia (1983: 297) como:

“o conceito central das duas ciências verdadeiramente novas da época moderna, a ciência natural e a histórica, é o conceito de processo, que esta fundado sobre uma experiência humana: a da ação. É somente porque nós somos capazes de agir, de nós mesmos podermos deflagrar processos, que somos capazes de conceber, a História e a natureza como sistemas de processo”.

 A ciência natural e a história são aliadas para esconjurar a improvisação e não deixar que o aprendiz chegue e colabore no efeito final contrário ao seu projeto malogrado, Se acontecer esta tentativa frustrada poderia invocar todas as sanções morais, jurídicas e materiais sobre este aprendiz. Enquanto isto o Poder Originário é jogado na mais profunda heteronímia, e vez de mantê-lo acordado, vigilante e com voz ativa na sua neutralidade diante de eventuais desmandos provenientes dos tiranos sempre de plantão. Estes desmandos necessitam um ativo sistema de verificação e que na concepção Kuhn, (1997: 185) “é como seleção natural: escolhe  a mais viável entre as alternativas existentes em uma situação histórica determinada”. Esta mentalidade coincide com sistema de verificação do mundo estético onde Worringer concluiu (1957: 15) que “ todo fenômeno artístico permanece incompreensível para nós, até conseguirmos penetrar na necessidade e na regularidade de sua formação”. Sem este tempo e atenção aos fenômenos específicos esta verificação, mesmo o cientista político ou o estudioso da administração pública, está impedido de atirar em qualquer um e a qualquer pretexto. O cientista Bruyne os coloca (1977: 32/2) no Campo axiológico especifico no qual onde agem respeitando: 

“o campo axiológico é o campo dos valores sociais e individuais que condicionam a pesquisa científica. A própria persecução do esforço científico é sustentada por valores específicos. Os valores culturais inerentes a sociedade impõem ao pesquisador a escolha de suas problemáticas, dos temas que ele aborda. Assim Max Weber insistia sobre a ‘relação aos valores’; Marx dizia que os homens só se colocam os problemas que podem resolver, confessando, por conseguinte, as conexões da pesquisa com os contextos sociais, técnicos e culturais nos quais ela se inscreve. Ora, a escolha da problemática deve esforçar-se por ser explícita, sob pena de ceder à múltiplas influências das ideologias. Os interesses próprios ao pesquisador sugere-lhe igualmente orientações específicas.. isso não impede absolutamente que as pesquisas em ciências sociais, cujo objeto com muita frequência concerne o estudo dos valores, das normas, das dignificações, possam tratá-los como ‘fatos normativos’ sem cair no subjetivismo”.

Quem se julga na autonomia necessita verificar os seus severos limites e aqueles do campo do poder originário e retornar às competências desta ação na luz do que Ladrière escreveu (1977: 207/8). O âmbito da célula municipal oferece a forma mais objetiva, visível e concreta destas competências. É nelas que o poder do Estado possui a origem mais próxima da base da sua própria competência para legitimar a tarefa de acordar a Nação. Na célula municipal os partidos exercem o seu papel preponderante de liderança nesta ação. Competentes para dar forma e para ocupar o poder do Executivo e do Legislativo. Competentes prover com dados e informações o Judiciário para que este avalie e julgue aquilo que foi proposto pelo Legislativo e praticado pelo Executivo municipal. Nesta célula municipal as lideranças destes partidos não excluem a sociedade civil constituída legalmente como instituições de toda ordem, como associações operárias e do capital econômico, das igrejas, dos clubes. As lideranças destes partidos possuem competência para emprestar a sua coerência, o seu sentido civilizatório e a sua autoridade para sustentar circulação do poder civil e determinar e aprovar formas novas e desconhecidas do “quarto poder”.

 

2.02 - A DITADURA na ERA da INFORMÁTICA

 

O uso da informática numérica digital - mais intensiva e humana - esbarrou na dúvida se a sua instalação efetiva o seu uso concreto não poderia derivar para uma cultura ao modelo conceitual de um “BIG BROTHER”. Dúvida que desafia não pela incerteza, mas a derrota dos projetos humanos e falta de rumo. A gênese da dúvida inicia no mundo helênico e ganha foros centrais na contemporaneidade conforme Arendt afirma (1983: 345) que:

  “Descartes instala a dúvida e somos instados a segui-la em todas as ramificações. Como é possível aceitar o argumento da superioridade do espírito sobre os sentidos, quando ele reconhece que para triunfar  deve se apoiar sobre os sentidos”.

O mundo moderno teve seu caminho civilizatório aberto pelas concepções do mundo grego clássico. Porém a dúvida em relação ao espírito e das suas chances para impor-se aos sentidos, estavam bem presente em ambos, conforme Arendt destaca (1983: 345/6 que:

 “a filosofia moderna, depois de Descartes, consiste em sistematizar a dúvida e a segui-la em todas as suas ramificações.. Se o Ser e a Aparência se separam para sempre, pois esse é o postulado da ciência moderna, então não existe mais nada a aceitar na confiança; é necessário duvidar de tudo. Já Demócrito havia predito que a vitória do espírito sobre os sentidos não poderia terminar do que com a derrota do espírito.”.

A derrota do espirito ocidental precipitou-se através de uma janela que se escancarou repentinamente. As redes de terrorismo revelaram a outra face e se precipitaram sobre o mundo ocidental devido ao uso concreto e audacioso da informática. Estes instrumentos da informática mostraram, no início do 3° milênio, que as ditaduras não podiam ser destinadas aos museus da História. Ditaduras, tanto de agressão ativa, como aquelas passivas escondiam-se em argumentos daqueles que desejam demolir estas muralhas eletrônicas da segurança nacional. Ditaduras que acham as mais inesperadas brechas nestes sistemas de segurança. Estes sistemas se “desmancharam no ar” diante deste tipo de noosfera da informática e golpearam as estratégias, a logística e as táticas militares tradicionais.

Este desmanche atingiu, em cheio, as estéticas que utilizavam as estratégias que denominavam de modernas. Hansen analisou (1998: 34) este desmanche e constatou:

 “em 1997 o momento heroico da sua diferença descolonizadora há muito foi apropriado no momento cínico do mercado objetivamente previsto no ato mesmo da invenção. O ‘moderno’ tornou-se método e pouco sobrou da negatividade das invenções [...] O que, supondo-se o monopólio do mercado, viria as ser romanticamente irrisório: Marinetti acadêmico, Duchamp no museu.  A pintura moderna era fundamentalmente  paródia. Capturada no museu, no mercado o nos media, tornou-se autoparódica, pois monumentalizada como classicismo da destruição de monumentos”.

Destruição que atinge os pesados monumentos de um passado da economia era agrícola tradicional. Destruição que não poupou os caros equipamentos da era industrial. Estes estão enferrujando e desativados como as fábricas que lhes deram origem, levando consigo o que restou do termo moderno. Desmanche que atingiu também as tradicionais estratégias, a logística e as táticas militares passaram a investir na lição das ditaduras do século XX. Estas preferem as formas das versões dos fatos políticos no lugar da realidade concreta. Neste sentido constroem o uma memória coletiva própria para o uso deste grupo interno e que Ruben Oliven destacou (1992: 20) que “a memória coletiva está ligada a um grupo relativamente restrito e portador de uma tradição, aproximando-se do mito e manifestando-se através da ritualização dessa memória”. Para tanto este grupo restrito manipulou e construiu factoides em versões interesseiras que ocultavam e fizeram circular, apenas, as informações que lhes eram favoráveis. Realizam esta façanha pelo “domínio do processo e não das ideias ao modelo e nas formas das coisas futuras, servem de orientação às atividades do homo faber da época moderna” na concepção Hannah Arendt que lhe confere (1983: 375).

Este grupo relativamente restrito que se vale de paradigmas concorrentes ao exemplo daqueles do universo das próprias ciências. Estas  conforme Kuhn efetuam (1997: 137 e 184) “lutam pela adesão da comunidade científica. As diferenças são necessárias e irreconciliáveis”. Esta luta extrapola o senso comum. Confronta-se com o paradigma concorrente forjado pela indústria cultural e atende pelo chamativo nome de ócio forjado do termo ócio da realidade concreta. A concepção escapista do ócio e do reducionismo é obra do Iluminismo e da era industrial. Ócio devido à falta de postos formais de trabalho. Reducionismo cultural evidente nas obras para uma comunicação massiva necessária para o horizonte de uma idade mental de 12 anos. Contra esta tendência reducionista insurge-se Burke ao afirmar (1997: 7)[5]impossível vulgarizar certas questões”. Na antiguidade clássica Aristóteles[6] era categórico ao afirmar “não se deve argumentar com todo mundo, nem praticar argumentação com o homem da rua, pois há gente com quem toda discussão tem por força que degenerar”. O reducionismo além do risco da vulgarização,  mergulha o emissor e o receptor no ecletismo.

No âmbito da cultura mais elaborada e erudita surgiu a concepção do tempo e do espaço abstratos, nos quais o tempo (relógio) e o espaço (metro), não obedecem mais as medidas humanas (pé, polegada..) A luz e as máquinas aboliram o ritmo do tempo de repouso e de trabalhos humanos. Esta realidade para Kuhn (1997: 130) levou para: “uma preocupação excessiva com problemas úteis, sem levar em consideração sua relação com os conhecimentos e as técnicas existentes, pode facilmente inibir o desenvolvimento científico”. O mesmo Kuhn havia escrito (1997: 130) que “a era industrial aboliu as relações antropométricas e da natureza introduziu medidas abstratas. A arte pode devolver  as medidas naturais ao homem. Mas será como escolha disponível transformar o lazer em ócio cultivado como valor”.

 Entre as numerosas e potenciais escolhas a Arte pode devolver o homem ao seu ritmo e retirá-lo da alienação na qual foi jogada por fatores externos a ele. Será uma conquista profundamente humana contra a concepção escapista do ócio do Iluminismo e da era industrial.

 A concepção escapista do ócio é uma das versões que deram origem à “guerra das idéias”. Esta “guerra das idéias” mergulha as suas raízes nos “déspotas esclarecidos” e dos quais os reis franceses russos e prussianos foram mestres. Porém Napoleão Bonaparte já alertava “onde passam as ideias de guerra, dez anos depois passam os canhões”.

Este é o campo doxológica da linguagem. Linguagem usada correntemente, sem que ela sofra edições, revisões, sistematizações ou profundas análises de discurso acadêmico, muito menos paire na estratosfera da metafísica. Em relação a este campo impuro da linguagem e sem apuro formal Bruyne escreveu (1977: 33) que:

 “o campo doxológico é o campo do saber não sistematizado da linguagem e das evidências da pratica quotidiana, de onde a pratica científica deve precisamente esforçar-se para arrancar suas problemáticas específicas. O campo doxológico é o suporte e o produto da linguagem comum, das práticas empíricas; pode determinar no pesquisador um a ‘certeza sonambúlica’ (Manheim) sobre a realidade que ele investiga. O pesquisador deve desprender-se das pré-noções do senso comum. Uma doxologia teria o papel de estudar a incidência do saber sobre as práticas cientificas; uma nosografia (Wittgenstein)”.

O estudo da linguagem do jovem abre um novo e surpreendente campo doxológico no âmbito dos recursos numéricos digitais ou das pichações dos muros urbanos. Por mais anárquicos e caóticos que sejam as pichações, não deixam de ser uma linguagem de ortodoxias as avessas. Ortodoxias expressas em desqualificações de discursos estéticos dos seus oponentes e que eles arrasam, percebendo-os como donos do espaço público e do qual o pichador se apropria. Assim cabe-lhe o que Bourdieu escreveu (1987: 108) “quando os diferentes produtos se defrontam, a competição se desenvolve em nome de uma pretensão à ortodoxia [...] a melhor prova é o fato de que as oposições e divergências se expressam espontaneamente na linguagem da exclusão”.                     

Os pichadores dos muros, na sua pretensão de hegemonia e na busca de um reconhecimento público, tornam-se iconoclasta e agressivamente inovadora. Caba assim ao pichador também “a linguagem de exclusão e se vale, em geral, da pretensão à ortodoxia” na concepção de Bourdieu (1987: 108). Nesta sua linguagem o pichador apresenta um arsenal de estratégias, táticas e de logística. Estas dependem da atual era da informática, das ideologias e dos projetos que os governantes remetem e decifram para o entendimento do seu próprio Poder originário. Imitando os rituais desta nova geração os governantes escondem frequentemente ou fazem de conta que projetos os seguem alguma ideologia. Porém o pior acontece quando projetos e ideologias viram uma salada eclética. Mário de Andrade fustigava o ECLETISMO como “acomodatício e máscara de todas as covardias”. [in Andrade 1955, fl. 13] A frase original foi escrita em 1938,  época do Estado Novo.

Supõe-se que os administradores públicos tenham coragem, bom senso e decisão para apresentarem publicamente - e antes de suas ações - os seus projetos e as ideologias que os fundamentam. Esta coragem, na apresentação pública e prévia, estimula uma decodificação, permite circular, na forma de minutas de contratos.  A prévia apresentação pública e sua  decodificação pelo Poder Originário, serão ferramentas para contornar a sombra do “BIG BROTHER” e das ditaduras totalitárias. Como consequência esta necessária circulação aberta das informações, poderá impulsionar as energias do poder originário em direção da Democracia, da austeridade republicana e para a cidadania. Estes impulsos encontram poderosos apoios na dialética entre memória, esquecimento e lembrança e cujo efeito que Marcuse descreveu (1981: 79) como:

 “a autêntica utopia baseia-se na memória.. A arte combate a reificação fazendo falar, cantar e talvez dançar a palavra petrificada. O esquecer os sofrimentos do passado e as alegrias passadas torna mais fácil a vida sob uma realidade repressiva. Pelo contrário, a lembrança estimula o impulso pela conquista do sofrimento e da permanência da alegria

Nestas dialéticas, transformadas em complementariedades, desejam-se todos os tratados disponíveis em todas as instâncias. Os contratos escondidos e depositados em arquivos estáticos de difícil acesso e cercados pela burocracia só ajudam a petrificar e congelar a memória viva. Projetos que, nas palavras do historiador e prefeito da cidade de Roma Giulio Argan (1992), se reconheçam no agir no qual existe uma somatória dos esforços da práxis com a ritualidade. Cientistas e filósofos, em sua devidas posições podem se complementar como Bruyne prognosticou (1977: 43) ao afirmar que “no processo científico os pesquisadores estão na base de um processo científico, armados com a metodologia, os filósofos estão no fim das pesquisas para analisar seus produtos e seus resultados”

Também não se deseja a visibilidade pública do pelourinho da era agrícola no qual o colonizador do Brasil fixava as leis, de preferência numa língua culta eivada de latim. Infeliz do índio ou do africano que não soubesse decodificar esta vontade colonial e ou desobedecesse, pois o pelourinho era o lugar da aplicação das penas. Não se deseja a publicação só no Diário Oficial - da era industrial da mídia impressa - cujo acesso é de poucos, e cuja leitura exige tempo e hermenêutica para a compreensão dos códigos cifrados jurídicos. A complexidade do Poder Originário não pode ser reduzida a alguns pontos, correndo risco de ser outra coisa e retornar ao mundo natural ou se elevar para uma mitologia esterilizante e metafísica do poder. Este perigo real levou o presente texto a se expor perigosamente no seu peregrinar pelos mais variados indícios desta complexa estrutura montada na vertente do Poder Originário.

 

2.03 -  A GUERRA SOCIAL para CONTORNAR a GUERRA REAL.

 

Esta parte do texto é orientada pelo pensamento de Pierre Bourdieu que afirma (1987: 131) a necessidade da “violência simbólica pela ritualização dos seus conflitos atuais ou passados”. Sobre o tecido social brasileiro pesam enormes conflitos do passado e do presente a espera desta ritualização. Devido aos covardes  contornos, os esquecimentos voluntários ou a simples desqualificações destas violências, efetivamente praticadas e clamando aos céus,  o tecido social brasileiro sempre “esteve por um fio”. Contribuíram também as utopias - que alimentou as mentes e os corações dos jovens – levou este tênue fio de esperança sempre a beira da ruptura. Fio de esperança suspenso por um cortejo de profetas e seus sacerdotes no papel de militares, de cientistas e da própria religião. Profetas, crentes, ou descrentes totais em qualquer divindade, mas que instauram uma nova ‘verdade’  insustentável. Cada profeta é seguido e consagrado por outro cortejo de sacerdotes que administra essa nova verdade. No conceito de Max Weber o profeta é a revelação do original. O sacerdote mantém a revelação original. O profeta é a ruptura com a tradição, o sacerdote é a conservação. O xamã descobre os espíritos ocultos, o feiticeiro dialoga com esses espíritos apontados pelo xamã. Os jovens continuam a sacrificar o que eles possuem de mais precioso na busca do que eles consideram a Verdade apesar deste tênue fio de esperança.

A Verdade não dói. Dói a necessidade de mudar a mentalidade e os comportamentos que ela impõe a quem a conhece. Não dói reconhecer a verdade da fragilidade social. Dói apenas para quem é vítima desta desigualdade. Se a maioria não tomar a decisão da mudança de um Estado injusto, este fato irá doer para todos e para sempre. Vai doer para os injustiçados. Uma desconstrução de um hábito, de uma cultura e de práticas ancestrais adquiridas subliminarmente sempre é dolorosa. Esta desconstrução está no  que Mota registra (1980 : 222) ao constatar que:

 “uma análise do romance de Antônio Callado que serve de marco para a época: QUARUP. Assinala por Ferreira Gullar, tem por subtítulo ‘Ensaio de deseducação para Brasileiro virar Gente’, sugerindo que a ‘afirmação implícita no romance de que é preciso ‘deseducar-se’, livrar das concepções idealistas alheias à realidade nacional, para encontrara” Mota,

Desconstrução necessária para distinguir ENTE do SER e que Arendt aponta (1983: 244 e 304) quando escreve:

quem é, ou quem foi alguém, não o sabemos a não ser conhecendo a história  da qual ele é o herói-  dito de outra forma – a sua biografia; todo o resto do que sabemos dele incluindo aí a sua obra que deixou, nos diz somente o que ele é ou o que ele era”.

Todo aquele que quiser mudar o Estado terá de tomar a desconstrução do estágio anterior da sua História em suas mãos. Para tomar em suas mãos a História necessitam expressar a sua vontade em relação ao fato político, em relação aquilo que eles nunca realizaram e tratar de entender a natureza desta mudança. Lopes Filho escreveu[7], em 1996 que:

“para mudar, é preciso ter humildade. É a ocasião oportuna para identificar como centro de sua política, a nação. E como destinatário do sucesso governamental, o povo e primeiro lugar, imenso contingente órfão de atenção, benesses e efetiva prestação de serviços públicos básicos”.

Vai doer para os atuais privilegiados, pois, estes poucos terão de mudar hábitos seculares e passar a produzir e se alimentar com o seu próprio trabalho. Por enquanto, o conhecimento da Verdade da fragilidade social brasileira, não doe aos poucos privilegiados do país, pois os seus hábitos e a sua cultura escravocrata ainda os anestesiam. Para estes poucos privilegiados a fragilidade social, política e econômica é um problema dos OUTROS e que eles declaram liminarmente insanável, sem realizar qualquer esforço ou investimento neste sentido. Estes poucos privilegiados sempre conheceram e usaram intensamente este abismo social para o seu próprio proveito e o manipularam as formas desta desigualdade das maneiras mais engenhosas possíveis[8]. Anestesiados e envoltos nos hábitos e pela cultura escravocrata não podem perceber a necessidade de mudar, até para poderem manter estes privilégios[9].

Um dos processos mais subliminares para anestesiar o Poder Originário é exibir, evidenciar a fazer reproduzir a alodoxia construída com fragmentos brilhantes dos quais um povo se orgulha e que ele próprio exibe como conquista única e definitiva. Porém o objetivo último desta alodoxia é substituir e fazer esquecer o presente monótono, chato e aversivo. Freitas[10] descreve (1996, p.24) este processo de que:

 “ao invés de se empenhar na conquista do futuro, refugiou-se no passado idealizando-o como uma perdida idade de ouro em que todos eram livres e felizes. Percebe-se a vantagem do mito, as novas elites urbanas dele se apropriaram e promovem através dos seus aparelhos ideológicos, o folclore, a literatura a historiografia, a poesia. Desta forma embevecidos na contemplação e recordação de um passado mítico, os homens se conformam  com  o presente, e deixam de sonhar com  o futuro” .      

Uma das primeiras mudanças necessárias é evidenciar, enunciar e inverter este processo. Se este tecido deste processo foi urdido pela lei - que precede o fato - há necessidade que este fato faça companhia e seja entretecido com e pela lei que precedeu temerariamente o mundo empírico. A lei necessita, por sua vez, de uma construção linguística. Nesta construção linguística Gomes[11] esclarece (1979: 62) que “o nosso instrumental linguístico se enriquece desde que partamos de nossas importâncias e urgência para a linguagem e a palavra e não o contrário". Os biólogos Maturana e Varela fundamentam (1996: 180) a concepção de que:

 “designamos como linguística a uma conduta comunicativa ontogenética, quer dizer, a uma conduta que se dá em um acoplamento estrutural ontogênico entre organismos, e que um observador pode descobrir em termos semânticos”.

O acoplamento estrutural ontogênico entre organismos ou, a costura entre o fato empírico e a narrativa do texto legal, acontece com frequência e com intensidade no universo do micro universo municipal.  O município de Porto Alegre ficou em evidência na mídia mundial por contrapor-se ao discurso dos representantes reunidos em Davos. Foi um episódio de um sonho no campo social. Este sonho como ideia aconteceu no Fórum Social Mundial em Porto Alegre[12] é como projeção de uma necessidade ainda não resolvida no espaço local. Não há como resgatar aqui os sonhos ali havidos o que só será possível na medida em que ganharem corpo através de registro escrito, sua circulação aberta e da sua continuada reprodução em outros eventos. É da natureza do social a busca da criatividade, pois a criatura humana não nasce social e arte necessita de público e receptor social das suas obras. Social e criatividade que chegam ao nível do consciente, através de um problema, e, que se constitui problema na medida em que busca transformar-se numa obra do mundo físico. Essa definição justifica-se de um lado pela vigência do social que galga os degraus da abstração até o ponto do conceito. Do outro lado a saturação de objetos físicos até a sua poluição busca o estatuto de referenciais para este social constituem como pontes penseis provisórias entre o mundo material e imaterial. Pontes entre o mundo das ideias e mundo da concretude dos sentidos humanos. Espaço conceitual do social está intimamente relacionado com a erudição e crítica dos paradigmas que os conceitos podem tomar ao tentar criar um corpo físico num evento com o Fórum Social Mundial. Esta crítica purifica o evento jogando-o no plano do pensamento, como interdiz qualquer conceito que teria problemas ao se transformar em obra.

Por meio do sonho no campo social realizado no município também será possível evitar, com mais eficácia, que este fio se rompa devido a sua proximidade entre o fato empírico e a lei ideal.  O colapso desta célula do micro universo municipal comprometerá a macro estrutura do Estado brasileiro.  Como um câncer este colapso irromperá no restante da Nação. A célula do micro universo municipal, não sanada adequadamente, contagiará a vida social, a política, a saúde e a cultura das demais células, pela metástase do precedente aberto.

Na via contrária o socorro e prevenção coletiva pela ajuda a um poder municipal isolado pelos demais municípios poderá ser mais efetivo, volumoso e intenso. Evidente que esta efetividade pode ser  reforçada por um sistema  de ação. Ladrière definiu (1977: 17)

 “o sistema de ação compreende, ao mesmo tempo, as mediações técnicas que permitem dominar - mais ou menos adequadamente - o meio social e as mediações propriamente sociais através dos quais a coletividade se organiza com vistas a gerir seu próprio destino

 Neste sistema de ação o socorro e a prevenção coletiva são provenientes da ajuda dos demais municípios e potencializados pelos instrumentos atuais informações e comunicações comuns. Os poucos privilegiados não poderão mais fugir da mudança e se refugiar nos segredos diante desta abertura das janelas e portas e mitos que antigamente, eram os seus instrumentos de domínio do poder público. Estes poucos privilegiados podiam assaltar o poder e o bem público de uma nação, província ou município. Realizavam esta façanha cercados e protegidos pelos segredos e pelo cultivo reiterado dos mitos. Assim se apropriaram da confecção das leis e as regulavam segundo os seus interesses. Realizaram esta façanha ao longo da era agrícola pelo pelourinho, ou, na era industrial, ao deterem e se reproduzirem ao alimentar a linha de montagem da imprensa. A escravidão terminou legalmente, ainda que subsista a sua prática na clandestinidade. A  linha de montagem industrial também continua a funcionar com muitos ruídos e poluição de toda ordem pelo de se tornar obsoleta diante dos atuais instrumentos informações e comunicações comandados e alimentados pelos recursos numéricos digitais.  Os instrumentos da informação numérica digital substituíram a onerosa e velha rotativa e subverteram os privilégios da concessão da estação de rádio ou da TV. As redes sociais eletrônicas serão cada vez mais intensas e independentes e fora do controle capitalista concentrado, centralista e hegemônico. As redes sociais eletrônicas conectarão cada vez mais pessoas, corporações, “ONG´s” ou “blog´s” virtuais. Diante deste universo numérico digital a Inteligência Americana (CIA) - construída nos moldes da era industrial - já foi contornada por uma China, por uma índia ou mesmo pelo terrorismo internacional que atingiu fisicamente em cheio o Pentágono e Nova York. A Rússia abandonou o seu pesado, caro e perigoso arsenal e logística nuclear, para investir e explorar as potencialidades da era numérica digital. Assim “repaginou” a Eletrônica e a explora em novas e inéditas dimensões pacíficas e na de defesa dos seus interesses.

Na era informatizada há necessidade de intensas e ativas mudanças de mentalidade, de hábitos e de comportamentos.  Uma das mudanças é em relação ao mundo prescritivo da era industrial é penetrar e interagir com o mundo descritivo pós-industrial.  No portal da pós modernidade impõe-se transformar a aparente contradição entre o prescritivo em descritivo em produtiva complementariedade. Esta transformação é um dos projetos de De Duven[13] ao escrever (1989, p.71) que:

  “o que eu procuro é uma aliança entre o descritivo «pós-moderno» ( em termos da implosão, de simulacros, de esquizofrenização social, etc.. ) e o prescritivo «moderno» (que recorre ao marxismo, à teoria crítica e ao relatório da emancipação)”.

 O universo das severas prescrições da era agrícola e industrial é compatível com o universo das exaustivas descrições da era numérica digital informatizada. Exaustivas descrições que sempre formaram as narrativas da

História da Arte.  Heidegger esclarece (1992: 62)[14]

como instauração, a arte é essencialmente histórica. Isto não significa apenas: a arte tem uma história, no sentido exterior de ela ocorrer também nas mudanças dos tempos, ao lado de muitos outros fenômenos, e de aí se ver sujeito a transformações e perecer, oferecendo à história aspectos mutáveis. A arte é histórica, no sentido essencial de que funda a História e, mais propriamente, no sentido indicado

Estes dois universos mentais das prescrições e enumerações exaustivas são complementares com os seus respectivos universos empíricos. Estas enumerações exaustivas revelam e são índices dos subsumidores educacionais que aportam os elementos destas enumerações do que foi incorporado pelo estudante no interior do processo ensino aprendizagem e apto a ser assimilado e compreendido. Estes conceitos foram desenvolvidos pelo educador norte americano David Ausubel (1908-2008)[15].

No âmbito destes subsumidores educacionais os seus poderes micro e macro potencialmente podem celebrar alianças, contratos e pactos. Neste aspecto Giulio Argan percebe (1992: 40) que “a História da Arte e a única história do agir humano tanto no aspecto da contemplação como no do trabalho”. Esta contemplação aliada e complementar do trabalho, para Mazzocut-Mis (1994: 60) é potencial na obra de Arte pois ela “é uma posse durável e duradoura do objeto artístico e que consegue fixar, de alguma forma, o encantamento fugidio que nos mostra e nos faz acreditar naquilo que não reside nos objetos e nem nos sentidos”. Na mesma direção Reguera[16] interpreta Wittgenstein ao afirmar (1994: 137) que “a obra de arte é um objeto liberado, sereno e feliz, que resplandece sobre o panorama do universo inteiro distanciado de todas as viscosidades de sua espessura fática”. Para Belting (in Gleizael, 1994: 49) “a obra de arte é uma ficção e uma ficção é uma projeção do real no mítico, que dizer , do temporal no eterno”.

A celebração destas alianças, contratos e pactos entre contemplação e trabalho reforçam-se na era informatizada e estabelecem uma legislação paralela e civilizada. É o campo das forças da Arte na qual age a legislação cultural que Bourdieu, descreveu (1987: 108) como “todo ato de produção cultural implica na sua afirmação de pretensão à legitimação cultural”. Força da Arte que Greenberg distingue (1996: 48) como “inatividade ou atividade sem finalidade  distinta do trabalho como atividade carregada de finalidade”. Esta atividade sem finalidade trata de uma transição entre incomensuráveis e paradigmas em competição não pode ser feita passo-a-passo por imposição da Lógica e de experiências neutras na concepção. Em função disto Kuhn argumenta (1997: 190) por esta razão “esta mudança da forma (gestalt) visual, a transição deve ocorrer subidamente (embora não necessariamente num instante) ou, então,  não ocorre jamais”. Bourdieu argumenta (1989: 49)[17]

  “aquilo que se chama a «ruptura epistemológica», que dizer, o por- em-suspenso as pré-construções vulgares e os princípios geralmente aplicados na realização dessas construções, implica uma ruptura com modos de pensamento do senso comum, do bom senso vulgar científico

De uma forma geral a ruptura epistêmica necessita de condições somáticas e mentais. No aspecto somático a criatura humana revela as condições e competências físicas diante da ruptura epistêmica para não agredir diante da mudança necessária aos seus comportamentos corporais. No aspecto mental a criatura humana é capaz de receber, iniciar e elaborar críticas e implementar rupturas epistêmicas e estéticas que são preocupações culturais constantes na Educação e na Psicologia quando buscam unir vontade e uma inteligência. Bourdieu afirma (1987: 218) que

 “há necessidade de ruptura com o seu próprio conhecimento para ser oposição dialógica de uma obra de arte que não se inscreve no código pessoal.  Os conservadorismo estético funda-se na recusa de romper com os códigos conhecidos para entregar-se as exigências internas da obra”.

Os objetivos, as causas e as consequências da ruptura epistêmicas  na estética Bourdieu as descreve (1987: 218) são “para incluir uma obra de arte, que não se inscreve no código pessoal, rompe com o próprio conhecimento, gerando uma oposição dialógica. Essa ruptura é exigência interna da obra”.

Estas rupturas epistêmicas e estéticas bem conduzidas,  somática e mentalmente,  constroem portas e janelas para a concepção ganhar espaço da legitimação paralela na qual a Arte serve às classes inferiores como forma de inclusão no sistema vigente. Esta legitimação paralela é sustentada pelo consumo de objetos oferecidos pelas classes artísticas inferiores as classes elevadas.

  A concepção de legitimação paralela tornar complementar a contradição entre contemplação e trabalho. Porém a raiz da legitimação paralela reside na própria obra de arte. Umberto Eco entente (1995: 7) esta como “a arte é o único trabalho puro que se efetua na realidade, mas sem contradizer e destruir o seu significado, sem usar a violência contra ela”. A partir de concepção marxista Argan argumenta (1992: 40) “o  que distingue o pior arquiteto da melhor teia de aranha é que o arquiteto ergue  a sua edifício na imaginação”. No panorama filosófico Hannah Arendt elucida (1983: 144/5) que o  obrar “possui um final quando o objeto está acabado, pronto para fazer parte do mundo dos objetos resultante do obras”. Enquanto o TRABALHAR: não tem fim a não ser na morte do organismo. A complementariedade obtida pela transformação da contradição entre contemplação e trabalho, entre o obrar e o trabalhar, permitem a reciproca potencialização.

A potencialização da legitimação paralela pode ser válida também para os vínculos que ligam às células micros (municípios) ao macro da cabeça nacional e internacional (Brasília- Blocos - ONU) e constituem o seu conteúdo. Os instrumentos da era numérico digital informatizada, possuem a potencialidade de se reiniciar pela raiz o código genético até o pátrio poder. A era informatizada passa pelo município como primeira instância escala política artificial. Prossegue numa rede que abrange gradativamente toda a solidariedade da humanidade. O ponto de partido da cidadania é mudar a mentalidade, hábitos e comportamentos obsoletos. A cidadania não pode se dobrar ao populismo e nem para aqueles já privilegiados para que  obtenham ainda mais vantagens políticas, econômicas e sociais. Cidadania na qual o eleitorado não tolera mais fugir de qualquer sanção moral dos seus próprios atos colocados da mentalidade antiga, dos hábitos e comportamentos colocados, preguiçosa e interesseiramente, sob a capa da heteronímia. Heteronímia expressa desavergonhadamente na singela expressão “a culpa é do governo” seja ele o que for.

O ser humano torna-se histórico por meio dos seus projetos. Este ser humano não produz nada, abandonado ao acaso, ao “laissez-faire”,  ou apenas alimenta a barbárie que reconduz a humanidade de retorno ao caos primário. O ser humano, ao se defrontar com a velocidade de se “ocupar daquilo que nunca se repete”, necessita de intensos e sólidos projetos. Os gregos já afirmavam que “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, ou que “a mãe não acorda duas vezes o mesmo filho”. A concepção do efêmero a atenção para aquilo que nunca se repete não é nenhuma novidade para a humanidade. A existência genética da pessoa única expande-se para cidadania política, cultural e econômica reforçado pelos instrumentos numéricos digitais.  Esta pessoa havia se transformado num número de série na linha de montagem da era industrial. Número rigorosamente igual aos demais múltiplos na política, na cultura, na educação formal e na economia. A era numérica digital sabe que a fantástica estrutura do código genético jamais se repete mesmo num clone. A política está reaprendendo aquilo que o capital econômico, tecnológico[18] e o comércio sempre fizeram: o alfaiate faz o terno exclusivo sob a medida do cliente, que é único[19].

De outra parte esta medida exclusiva necessita dos predicados da Bondade, especialmente no seu constante silêncio e na prática da suspensão de qualquer juízo (epoke) definitivo. Os biólogos chilenos, Maturana e Varela, advertem e recomendam (1996: 209) que “a Bondade deve fugir da aparência, caso contrário é outra coisa, a saber, tem por objetivo aparecer, mesmo que a descoberta venha do diálogo ente o EU e EU-MESMO”. Esta discreta Bondade, intrínseca da ação pública e do cidadão, certamente terá muitos elementos para um marketing e uma propaganda se caírem sob o império das tecnologias dos meios numéricos digitais e corromperem tudo.

 

2.04 – O PROJETO do PODER ORIGINÁRIO.

 

Antes de tudo há necessidade de uma compreensão do que entende aqui pelo termo limite. Worringer compreende (1953: 129)[20] que “nosso conhecimento dos fenômenos não está completo até que compreendemos que o  que parecia limite  é apenas transição e imediatamente nos damos conta da relatividade do todo”. Pasanen  (1994: 51) afirma[21] que:

 “segundo Wittgenstein, a linguagem delimita o mundo, e os limites do mundo são os próprios limites da linguagem. Não é possível ir além desses limites para descrever como é mundo, porque também será necessário então descrever como ele não é: e isso é impossível expressar na linguagem”

Os limites nos quais se projeta a construção de um “quarto poder”, a partir da célula municipal, há necessidade de pensar minuciosamente a verdade possível a esta linguagem. Verdade que se ergue no trabalho de desvelamento pela linguagem e pela arte. O filósofo Heidegger afirma (1992: 62) que

 “a arte faz brotar a verdade. A arte faz assim surgir, na obra,  o ENTE e a sua verdade. Fazer surgir algo é trazê-lo ao SER no salto que instaura, a partir da providencia essencial - eis o que quer dizer a palavra origem. A arte é, na sua essência, uma origem: um modo eminente como verdade se torna ENTE, isto é, histórica”.

Este ENTE, revelando a sua origem histórica, encontrou em Chartier alguém  capaz de perceber e registrar a relação dialética entre o que verdadeiro e o falso. Ele escreveu (1998: 197) que:

“na história das ideias e das condições nas quais aparecem. Dar-se a verdade como adquirida, mas também não se pode fazer economia de uma relação com a verdade e do falso. É essa referência, a ordem  da verdade e do falso, que dá para essa história sua especificidade e sua importância”.

 Neste trabalho da linguagem é necessário representar passo a passo as formas nas quais o seu processo evolui em todos os patamares de um Estado. No tange a representação do que se entende aqui pelo termo poder recorre-se a  Foucault (1995: 183) para quem o poder “não é algo que se possa dividir entre aqueles que o possuem e o detêm exclusivamente e aqueles que não o possuem”. Nessa concepção Chartier (1996: 206) resume o pensamento de Foucault onde se “destacam três ontologias históricas: - do conhecimento: verdade que nos permite ser sujeitos; do poder: sujeitos agindo sobre os outros; da ética: agentes da ação ética”.  É possível inserir a competência das expressões de autonomia da arte no triângulo do poder proposto por Foucault (1995: 180). Nesse triângulo existe um saber próprio da arte (conhecer), presente nas suas manifestações, cujas exigências respeita e pelas quais é respeitada (potência). Essa potência ao se constituir uma instituição encontra um sistema normativo (direito). Esse sistema normativo  estabelece o limite da autonomia que favorece a reprodução da competência que esse limite encerra, distinguindo da soberania.

O desafio é afastar as meias verdades, nesta linguagem, tanto na emissão como na recepção, como aquelas que permitam gerar equívocos implementados pelos mediadores e atravessadores de sempre.

Para afastar este equívocos é necessário admitir limites á esta competências. Limites para estar seguro de sua autonomia no seu próprio voo da imaginação. Nesta busca dos limites o poeta Schiller foi exemplar. Ele afirmou (1963: 35) como seu projeto:

“não quero viver noutro século, nem quero ter trabalhado para outro. O cidadão do Estado é também cidadão do tempo; e se é indecoroso ou mesmo proibido furtar-se aos hábitos e costumes do círculo em que se vive, por que não seria um dever, ao escolherem-se os próprios atos, considerar a voz do gosto e da necessidade do século?”

O filósofo Immanuel Kant nos socorre na compreensão do que significam os limites e as competências. Ele os coloca para no âmbito da autonomia. Limites referentes ao conceito de imanência ao afirmar (in Ferrater Mora, 1994: 1845)  que  “chamaremos imanentes aos princípios cuja aplicação se restringe por inteiro dentro dos limites  da experiência possível e transcendentes aos princípios que pretendem passar tais limites”. A filósofa Hannah Arendt também é sintética ao afirmar (1983: 240-247) que “imanência restringe princípios cuja aplicação se restringe por inteiro no interior dos limites da experiência possível”. Um extenso repertório filosófico, face ao fenômeno da globalização, foi recuperado por Negri (1995: 7, cad.5):                                                      

“a mim mesmo tentava explicar: o campo da imanência saber mundo, não se opõe à globalização, ao contrário a deseja; opõe-se à transcendência, a qualquer forma de poder que se coloque fora do homem e da comunidade, isto é, à ideologia e a prática da globalização capitalista. A oposição fenomenológica de Heidegger (o saber distinto) e às filosofias analíticas (autonomia da linguagem como impotência ontológica) clarifica a direção da filosofia no campo da imanência: constituição do verbo, produção das livres singularidades, reapropriação do «espaço público», renovação perene da resistência contra qualquer forma de poder que transcende o movimento real” .

Assim o  conceito e o uso coerente do termo ‘imanência” permitem a resistência ativa contra qualquer forma de poder que se diz transcender o movimento real. O tema da imanência foi desenvolvido por Ferrater Mora, (1994: 1845),  por Heidegger (1992: 43) e por  Marcuse (1981: 79).

 No caso do movimento real brasileiro, não se prega a destruição nem mesmo a substituição das hierarquias funcionais existentes e coerentes com os três poderes. As instituições necessitam dos três para a correta circulação do poder no Estado nacional. Ao mesmo tempo necessitam deles para instalá-los mantê-los e reproduzi-lo no se âmbito interno como fractais do sistema democrático e republicano. Isto para evitar equívocos entre competências e limites do projeto do Poder Originário. Estas instituições possuem vivas na sua administração também os três clássicos poderes nacionais. Porém em cada destas instituições corre o seu próprio Poder Originário e que a sustenta e necessita ser identificado, reconhecido, tratado e reproduzido como tal por iniciativa dos três clássicos poderes. Reprodução que de forma alguma pode desconhecer o difícil e sutil problema de prestar atenção e orientar as ações concretas ao modo de produção erudita. Atenção e agir que Pierre Bourdieu descreveu e afirmou (1987: 117) que: “deve incluir as instâncias capazes de assegurar, não apenas a produção de receptores dispostos e aptos a receber a cultura feita, mas também a produção de agentes capazes de reproduzi-la e renová-la”. Graças a este modo de produção erudita espera-se que a revolução não ocorra do modo como ela se apresentou de fato na maioria das vezes. Graças a este modo de produção erudita as comoções sociais, ou a ação  de uma soberania de um Estado sobre soberania de outro Estado, podem serem diagnosticadas. Esta ‘sociedade de discurso’ é denominada por Simmel (1986:432) como:

 “a «república dos sábios» é união semi-estável, semi-ideal, de todas as personagens que coincidem em fim tão geral como o conhecimento e que pertencem aos mais diversos grupos, no que se refere à nacionalidade, interesses pessoais e especiais, posição social etc..”:..

O seu produto é, para Bruyne (1977: 32) a elaboração de uma ética profissional, e uma linguagem comum para os pesquisadores de cada uma das disciplinas. Para Hobsbawn (1990: 52) “sem este espaço comum, sem as regras reconhecidas de um discurso comum, sem aquela parte de nossa identidade, que é comum a todas as pessoas estaríamos falando no vazio”.  Bruyne descreve (1977:32 /3) este espaço e grupo humano como:

“a ‘sociedade de discurso’, isto é, o conjunto dos pesquisadores, as teorias e as experiências, os rituais e as normas, as instituições acadêmicas e científicas, exerce um controle direto sobre toda a pesquisa. Os aspectos nefastos das sociedades de discurso sem dúvida são numerosos - conservadorismo, modas, nepotismo, dogmatismo, etc.-, no entanto, sua contribuição positiva é capital. Na verdade elas são a concretização, institucionalizada socialmente, de uma certa autonomia da pesquisa, o lugar crítico de controle mútuo, de elaboração intra-subjetiva, que garante a objetividade científica... O papel das sociedades de discurso, que formam a ‘cidade científica’, é o de elaborara uma ética da profissão e uma linguagem comum para os pesquisadores de cada uma das disciplinas, favorecer um certo ‘esoterismo’ que preserva a ciência da voracidade dos grupos sociais externos e de uma perigosa vulgarização que se conforma com um ‘mundanismo’(Durkheim) do que com o rigor.”

Este modo de produção erudita que identifica os pontos de atrito pelos instrumentos da informação numérica digital e formas civilizadas que contornam a necessidade de qualquer intervenção física.

No âmbito município se entrelaçam profunda e naturalmente vínculos mais próximos entre os três poderes que cultivam neste estágio a base da hierarquia nacional. Este vínculo torna-se diferente e cada vez mais tênue na medida em estas relações migram para patamares mais elevados e problemáticos devido ao assalto e à manipulação dos mediadores. Como a lei sempre precedeu o fato, o Estado foi construído do vértice para a base. Nesta construção teórica sempre foi relativamente fácil distribuir nas altas esferas as competências dos três clássicos poderes com intervenção de mediadores interesseiros e não autorizados pelo Poder Originário. Os laços tornaram-se naturais apenas no âmbito municipal e falam na prática de problemas e com relações diretas com o Poder Originário. Nos estágios superires a artificialidade é tão gritante que inclusive se prega o final dos estados regionais[22] brasileiros.

O Estado nacional soberano pode ser percebido como um poder teórico e abstrato. Como tal funciona apenas como um vértice isolado e desenraizado. Este vértice apresenta-se isolado e desenraizado. Este vértice isolado e totalitário distribui cargos e funções. Mas é impensável a distribuição do poder que fica preso ao vértice. Esta operação é possível pela pura e simples cooptação que Fávero descreveu (1980: 48) este “mecanismo de cooptação requer, em geral, um controle sobre os elementos cooptados, a fim de evitar o perigo de ameaça à unidade de controle e decisão. Em decorrência por meio da cooptação pode haver uma distribuição de encargos, de trabalhos, mas nunca do poder em si”. O mecanismo de cooptação realiza a façanha e normalmente possui fortuna do pleno êxito em congelar todo o fluxo do poder. Fluxo do poder represado e procrastinado até o momento de uma nova primavera onde o fluxo de novo, porém tumultuado e destrutivo. Ele retorna ao se fluxo normal e benéfico quando recupera a sua proporção a partir da célula municipal e onde estão as raízes do Poder Originário. Neste ambiente ele ganha coerência e força na medida em que fizer sentido para circulação do poder.

 Caso contrário é conversa por cima e por fora é para embalar na inércia das consciências interesseiras e as vontades primitivas mergulhadas na doce letargia e no sono de sua heteronomia.

Em muitos momentos a própria ‘república dos sábios’ de Simmel necessita entregar a mão á palmatória. A corrupção dos ótimos intelectuais é invadida e contaminada por sofista que tem por mira ganhar renome e dinheiro. Foi a praga na lavoura dos sábios clássicos gregos que também os denunciaram.  Aristóteles foi categórico (1973 : 176 171b 25) denunciando

 “aqueles [...] que agem.. com o fim único de conquistar a vitória são geralmente considerados como erísticas e rixentos, enquanto os que tem em mira ganhar renome e enriquecer com isso são sofistas. Pois a arte do sofista é [...] uma espécie de arte de fazer dinheiro graças a uma sabedoria aparente, e assim os sofistas tendem para as demonstrações aparentes”.

O seu paraíso são os Estados nacionais soberanos em conflitos fomentados e mantidos por contraventores internacionais. Uma única cabeça ou um grupo humano colocado no vértice isolado e desenraizado de uma nação, é facilmente manipulada por eles inclusive da criminalidade transnacional.  Nas mãos dos mediadores de todas as instâncias, inclusive transnacionais, pende facilmente para soluções ao estilo das duas guerras mundiais do século XX além de uma série de intervenções militares posteriores.

A própria célula municipal já é uma construção ideal e avançada. Esta construção municipal ideal e avançada necessita contornar o poder natural das expressões tribais provenientes de “caciques”, de “coronéis”, de clãs ou de fundamentalistas ávidos pelo poder cuja matriz e justificativa ainda é o feudalismo endêmico e requentado para os tempos e as tecnologias atuais.

Os limites da competência do Poder Originário oscilam homeostaticamente entre forças instáveis. Uma delas é célula municipal na qual o cidadão conhece e na qual define os seus interesses imediatos. Outra é a célula do Estado nacional na qual o cidadão avulso contrata e constrói, entre aqueles que ele não conhece, mas nos quais deve confiar para que o seu poder originário ganhe a potência e a plenitude que o cidadão almeja.

 

 2.05 - PARTICIPAÇÃO POPULAR.

 

Os que estão fora do governo clamam e convocam a participação popular. Porém é um dos numerosos expedientes para capturarem o poder em suas mãos e para os seus próprios interesses. Pois estas mesmas vozes excluem qualquer participação externa, uma vez instalados nas funções administrativas de um Estado contemporâneo. Excluem mesmo as vozes e a oportunidade do poder popular de quem antes se diziam advogados, mediadores e paladinos incorruptíveis. Vencida a etapa da conquista do cargo julgam-se livres de qualquer contrato da voz e da vez do poder popular. Desviam todo o prestigio do cargo publico esvaziado das suas funções legais, morais e da impessoalidade. Passam a implementar um novo projeto a quem emprestam o seu nome pessoal e individual. Este outro projeto encolhe-se cada vez mais e que se fragiliza e fragmenta em sucessivas perdas até atingir impasses intransponíveis, a ponto da completa in-governablidade.

Um exercício coerente com o Poder Originário necessita prever contratos coerentes para o antes, o durante e o depois de um evento governamental[23] e contrário a todo projeto corrupto pelo personalismo. Contrato único, coerente e factível que necessita aceitar o fato de que o  Estado realiza discursos de segunda ordem, diferente daquele de grupos populares. Esta distinção entre os planos na concepção de Ortiz (in Oliven, 1992, p.20) caracteriza:

 “a memória coletiva dos grupos populares é particularizada, ao passo que a memória nacional é universal. Por isso o nacional não pode se constituir como prolongamento dos valores populares, mas como um discurso de segunda ordem”.

No entanto este contrato, coerente com o Poder Originário, não cabe num voto. Nele se materializa a discurso de segunda ordem e cujo objetivo se traduz e destina primordialmente à etapa da conquista do cargo. O voto é um ato isolado anterior ao governo e que não garante um contrato para o durante e o depois de um evento governamental. O voto e a eleição, além de anteriores ao poder, possuem infinitas formas de serem corrompidos. Esta corrupção também ocorre normalmente durante o evento governamental. As inúmeras renúncias, ao exercício do poder, e as correntes denuncias de corrupção e prevaricações são sintomáticos desta falta de contrato sério, controle rigoroso e sanção posterior. O saque das coisas públicas possui os seus sintomas nas renúncias estratégias e daqueles que se evadem do poder num momento de crise e ajuste de poder. Além do mais, poucas são as consequências[24] mesmo após a renúncia ou ao término do exercício do poder.

A história do poder central do Brasil possui tristes episódios do comportamento daqueles que estão no vértice do poder. Aqueles que conquistaram o poder comportam-se como alguém por cima e por fora da cidadania. Este fato foi registrado pelo editorial de um jornal quando escreveu: “Presidentes da República, ainda os de temperamento menos autoritário, consideram-se, e assim são geralmente considerados personalidades fora e acima do conceito comum de cidadão[25]. No entanto estes governantes estão, de fato, na heteronímia. Eles foram colocados no vértice do governo pela ação orquestrada das forças mais reacionárias, militares ou pelo capital econômico nacional e internacional. Estes governantes de plantão, devem-lhes  o cargo e a função que exercem de forma inteiramente estranha ao Poder Originário da nação. Assim é conhecido o episódio de um governante do Regime Militar que contava os dias, para ver-se livre do cargo de Presidente do Brasil. A sua esperança era ser esquecido o mais rápido possível, o que de fato aconteceu. Antes dele um imperador brasileiro dormitava sentado no trono, quando não estava viajando, dando sinais evidentes do desinteresse pessoal ou a impossibilidade de exercer o cargo e a função imperial pelo bem e pelas coisas públicas. Foi despejado do cargo e das funções imperiais da noite para o dia.

Quando ocorre a clivagem sistemática entre a vontade popular e o exercício efetivo do poder, o povo entrega-se à apatia e à impotência. Esta apatia e impotência reconduzem este povo para aquilo que ocorria, até 1932, quando não contava o voto e a vontade pública feminina.  Este limbo da vontade feminina é agravado pela cultura da escravidão que se caracteriza por “não deliberar e não decidir” nos termos de Aristóteles. O voto e o exercício do poder político feminino hoje é uma realidade. No entanto este voto pouco favoreceu o gênero, pois a escravidão, apesar das eleições, permanece ativa no Brasil e se renova em constantes formas subliminares[26] devido ao habitus. Este termo habitus que o pensador Pierre Bourdieu associou (1996b, p. 144) com a concepção antiga de consciência quando afirmou:

O habitus preenche uma função que, em outra filosofia, confiamos à consciência transcendental: é um corpo socializado, um corpo estruturado, um corpo que incorporou as estruturas imanentes de um mundo ou de um setor particular desse mundo, de um campo, e que estrutura a percepção desse mundo a ação nesse mundo”.

Não existem mudanças possíveis ou significativas enquanto perdurar o império deste habitus no mundo das pseudo deliberações e nas decisões formais e externas. Enquanto se aguarda esta mudança há necessidade de distinguir, no plano intelectual, os seus diversos estágios do possível  do voto como um ato  anterior ao governo visando um contrato para o durante e o depois de um evento governamental. Para estas distinções é possível recorrer às concepções de Jean Piaget[27]. Para ele o indivíduo, no estágio da participação, entrega-se ao FAZER condicionado pela emoção do momento e à ação movida pelas grandes massas. No estágio da participação ele é levado pela emoção pontual sem contrato e sem cálculo das suas perdas e dos seus lucros. Não possui, antes da sua ação, clareza sobre as  consequências posteriores deste ato. No estágio da cooperação o indivíduo contribui, mas o lucro fica com os outros. O indivíduo, no estágio da interação, entrega-se ao AGIR comandado pela razão. No estágio da interação, discute e estabelece um contrato, antes de AGIR, sobre os eventuais lucros e perdas durante e após o trabalho coletivo.

A interação só é possível em estágios adiantados de uma civilização. O estágio da interação é o espaço típico da origem do poder republicano e democrático. Para a existência efetiva do estágio desta interação para a discussão dos contratos necessários o locus privilegiado é o município.  Neste micro espaço público o agente governamental e o seu Poder Originário  possuem condições para discutir e estabelecer contratos antes de AGIR. Para tanto deliberam e decidem em relação aos eventuais perdas e lucros durante e após o trabalho coletivo. Podem discutir a natureza dos contratos, readequá-los ao longo da sua realização e serem avaliados imediatamente após o trabalho coletivo. Este estágio adiantado de uma civilização possui a sua simetria e fonte em cada cidadão que a compõe. O esteta Schiller apontou (1963: 53.) que este cidadão é:

o homem ético deverá estar primeiramente acalmado o conflito dos elementos, dos impulsos cegos, e a contraposição grosseira deve ter cessado antes que possa ousar o favorecimento da multiplicidade. Por outro lado, antes de submeter sua multiplicidade à unidade do ideal é preciso que a independência de caráter esteja assegurada e que a submissão a formas estranhas e despóticas tenha cedido lugar ao decoro da liberdade”.

Este o favorecimento da multiplicidade cidadã se evidencia na interação humana no micro e macro universo.  O homem ético realiza contratos fidedignos e consequentes tanto na micro célula municipal, como, também, no macro espaço público do Estado nacional. Evidente que a circulação do poder é mais eficiente na micro célula municipal. Nesta célula reinam condições para perceber os limites do poder, as competências dos contratos,  implementar e realizar avaliações das perdas e dos ganhos coletivos[28].

A educação cidadã, plena e universal, a partir da célula municipal, conduz a um plano longínquo e ideal da macro célula da república. No plano ideal a educação cidadã, plena e universal, conduz à uma república na qual a pessoa, adulta e apta, constitui uma espécie de fractal da totalidade da sua sociedade. A educação cidadã é portadora, neste fractal, de todos os compromissos, contratos e regalias de toda a sociedade onde ela se desenvolve e reproduz. Num estágio adiantado e com educação cidadã, de qualidade para todos, surge o potencial humano para realizar o sorteio dos cargos públicos entre todas as pessoas aptas a votar e se candidatassem para tanto. Este sorteio de cargos e funções públicas já era realizado em Atenas no período áureo da sua Democracia conforme  Aristóteles (384-322 a.C.), registro na Retórica (1365).  

"…a Democracia é uma forma de governo na qual os cidadãos distribuem os cargos estatais entre si por sorteio, enquanto na Oligarquia a qualificação é por propriedade e na Aristocracia, por educação…"            http://pt.scribd.com/doc/24631774/ARISTOTELES-Retorica

Porém apesar deste pensador grego, apesar da larga folha de serviços que a Democracia prestou para diversas civilizações e continua prestar, as desqualificações das forças provenientes do povo são desqualificadas, senão ridicularizadas.

 

2.06 - O  POVO como SINÔNIMO de POBRE e DESQUALIFICADO.

 

A palavra povo tem por objeto a construção a partir de tendências comuns numa comunidade que possui traços de identidade de origem predominante de signos naturais. Este termo está gasto pelo uso  continuado e como panaceia universal nos discursos que buscam o senso comum e  agradar o repertório de qualquer auditório em qualquer circunstância e lugar. Este gasto e esta desqualificação são atribuídos por Hannah Arendt à distinção entre saber e fazer. Ela afirma (1983: 288/9) que:

“a separação platônica entre saber e fazer fica na base de todas as teorias da dominação que não são simples justificativas de uma potência irredutível e irresponsável. Pela única força da colocação na forma de conceitos e da iluminação filosófica, a assimilação do saber ao mandamento, à autoridade, e da ação à obediência, à execução, anularam todas as experiências precedentes, todas as articulações antigas do domínio político, ela dominou inteiramente a tradição do pensamento político mesmo quando não se havia esquecido as bases experimentais das qual Platão haviam tirado seus conceitos.”

A busca que perpassa todo o presente estudo é descobrir formas e recursos para transformar a contradição do saber e do fazer em complementares. Estudo que busca o saber o mais próximo possível ao fazer implementado pelas tendências comuns dos signos naturais do povo face ao poder. Poder que o povo constitui como fonte, mantém e reproduz, no entanto  é imediatamente alijado e desconsiderado e desqualificado deste poder pelo saber.  Para Chartier (1998: 54) a questão do popular, ou não, “é um falso problema. Importa identificar a maneira na quais práticas, representações ou produções, cruzam-se e envolvem diferentes figuras culturais”. A partir da constatação sustenta-se a tese de que os atuais  instrumentos da informação numérica digital realizam tantos, ou mais, cruzamentos e envolvimentos das diferentes figuras culturais. Cruzamentos e envolvimentos que abastecem esta interação, a mantém em constante produção e a circulação do poder quando coerente para reproduzir aquilo que aproxima o povo com as funções administrativas de um Estado contemporâneo.

 Obcecado por esta visão administrativa, central e totalitária que o filosofo Hegel escreveu (1980: 133) que é “o Estado  é que faz a nação e não a nação o Estado”. Após dois séculos de duras experiência com este estado hegeliano Foucault registrou  (1995: 292) que “o homem contém o germe do Estado. Toda nação tende a um Estado. Funde os sujeitos indivíduos apesar das múltiplas diferenças. O Estado provoca amor ou horror; o primeiro gera o monstro frio, o segundo o reduz a algumas funções”. No entanto no Brasil  Buzzar enuncia (1997: 129)[29] o equilíbrio homeostático entre estes polos extremos das forças antagônicas que oscilam entre  “a ênfase em um desses pólos cria a sístole e diástole nacionais. A Primeira República coloca a ênfase na Nação. Depois da Revolução de 1930 o enfoque é sobre o Estado intervencionista”. Porém esta oscilação com Foucault apontou (1995: 292) possui o seu preço, pois:

“sabemos que fascínio exerce hoje o amor pelo Estado ou o horror ao Estado: como se está fixando no nascimento do Estado, em sua história, seus avanços, seu poder e seus abusos, etc.. Esta supervalorização do problema do Estado tem uma forma imediata, efetiva e trágica: o lirismo do monstro frio frente aos indivíduos; a outra forma é análise que consiste em reduzir o Estado a um determinado número de funções” .

A oscilação entre a culpa (ditadura Militar) e perdão (Abertura Política) só é possível na medida da concepção de que o povo é sinônimo de pobre e é considerado como desqualificado para receber a informação integral e fidedigna. No jogo mortal entre culpa e perdão Poder Originário é bola da vez e sem a menor chance da estabilidade permanente de sua consciência política. Nesta concepção desqualificadora o povo é representado pelos mediadores, atravessadores e pelos auto titulares do poder como alguém pobre de corpo e de alma. Este povo é considerado pobre mental, cultural e, por natural consequência, também economicamente. Portanto ele é incompetente e desqualificado para ser origem e promover circulação de qualquer poder.  Gera uma cultura onde permanece e se reproduz esta imagem da incompetência e desqualificação do efetivo Poder Originário. Para o povo, esta memória reiterada, gera uma baixa autoestima, que é mais uma barreira para a circulação do poder na medida em que ele descrê em si mesmo. O predador está a espreita dos bens que este povo. Este predador aguarda o momento oportuno para aproveitar esta condição desqualificadora da baixa autoestima e da descrença em si mesmo.

Neste cenário desolado de anormia individual e coletiva é necessário distinguir o conceito de violência daquele de força. Segue-se Hannah Arendt no seu caminho (1983, p. 263) para distinções:

“coisa assaz curiosa, a violência destrói mais facilmente a potência do que a força, e se a tirania é sempre caracterizada pela impotência dos sujeitos, que perderam a sua faculdade humana de agir e falar em conjunto, ela não é caracterizada obrigatoriamente pela fraqueza e pela esterilidade, ao contrário as artes e os ofícios podem se expandir, se o tirano é assaz «benevolente» para deixar seus súditos tranquilos nos seus isolamentos”.

O predador vale-se de envolventes sistemas subliminares para agir na desqualificação deste povo e se apropriar dos seus valores. Joga o Poder Originário no seu isolamento físico doméstico em células habitacionais invioláveis, o cerca de uma parafernália da aparente conforto físico ao corpo e para a mente exausta oferece todo lixo e kitsch cultural coletivizante. Estes sistemas subliminares não admitem nenhuma qualidade no povo e afastam qualquer sugestão de que ele seja competente para o efetivo exercício do Poder Originário forçando-o a admitir e cultivar a sua heteronímia e a refugiar-se na sua eterna insignificância política. Esta mensagem subliminar, da eterna insignificância política do Poder Originário é ostentada como superioridade divina do candidato a ser mediador universal. O predador trabalha e se reforça pela imprensa massiva e monopolítica, pela religião, transformada em ideologia, ou pela economia. Na imprensa o lugar do Poder Originário é a crônica policial, onde ganha rosto e nome e progredindo até a admissão como consumidor massivo e anônimo, mas necessário da indústria cultural.  Este predador necessita manter este processo de desqualificação revertendo em benefício próprio qualquer eventual abertura das portas e da conquista da cidadela do povo. Para manter e cultivar este processo subliminar este predador passa a distribui “prêmios em cima de[30] quem se dobrou frente ás suas deliberações e decisões pessoais e totalitárias. O governante ingênuo apenas reproduz o mesmo processo de desqualificação herdado da cultura colonial anterior que se apropriou do poder. Se este governante é um tecnocrata ele quer trabalhar apenas para causar efeito com o seu “planejamento” e pautando o seu projeto com o FAZER em vez do AGIR coerente com o Poder Originário. Este “planejamento” do FAZER com resultados imediatos e impactantes parte da premissa de que o povo brasileiro não produz, pois é indolente por natureza e sem vontade. Este “planejamento” pode ser exercido pelo terrorista, pelo impostor ou pseudo-religioso. Eles se apropriam da alma deste povo por meio da exibição marqueteira dos resultados imediatos e impactantes do seu FAZER. Este FAZER é do  “Homo Faber” que Hannah Arendt (1983: 212/ 3) pois

“se permitirmos que as normas do homo faber governem o mundo acabará como elas governando a criação do mundo. O homo faber se servirá um dia de tudo e irá considerar tudo o que existe um simples meio para o seu uso. Ele classificará todas as coisas entre os chremata, os objetos de uso, e, para retomar o exemplo de Platão, não se compreenderá o vento como força natural, e o considerarmos exclusivamente em relação as necessidades humanas de respiração ou de aquecimento - o que evidentemente significa que o vento como coisa objetivamente dada foi eliminada da experiência humana.”           

Arendt distingue (1983: 267) o “Homo Faber” do “Animal Laborans” que tenta prolongar a vida, tornando-a mais fácil. Porém possuem algo em comum:

“o homo faber e o animal laborans são apolíticos no sentido estrito da palavra; em geral eles julgam as atividades públicas segundo a sua utilidade a respeito dos fins supostos mais altos neste caso o homo faber embeleza o mundo o torna mais utilizável, no caso do animal laborans tenta prolongar a vida tornando-a mais fácil”.

Cabe a este animal laborans a tarefa de trabalhar que Arendt investiga como termo etimologicamente distinto de  fazer. Ela escreveu (1983: 124 nota 1) que:

 “assim como o grego distingue ponnein de ergazesthai, o latim laborare de facere ou fabricari, o inglês labor de work, o alemão arbeiten de werken.Em todos esses casos, somente os equivalentes a «trabalho» significam sem equívoco sofrimento e infelicidade. O alemão Arbeit não se aplicava antes a não ser aos trabalhos dos campos executados pelos servos e não a obra dos artesões, denominados Werk. Em frances, travailler que substituiu labourer vem de tripalium, uma espécie de instrumento de tortura”.

Os predadores, os mediadores e aqueles que se tutelam com guardiães do Poder Originário apropriam-se da mais valia do trabalho alheio.  Realizam esta façanha por tabela apropriando-se dos cargos do Estado construído pelo mais valia do trabalho do Poder Originário. Reivindicam e assaltam os cargos como mediadores universais e definitivos como qualquer outro tirano totalitário. Porem não conhecem o trabalho que as funções dos cargos exigem, ou odeiam esta razão da função administrativa. De fato estão apenas interessados no poder, como qualquer outro produto. Na sua posse sentem-se no direito de deliberar e decidir em nome deste “pobre povo” do qual julgam se fiéis depositários de seu ânimo e que eles interpretam na sua própria lógica pragmática apesar das estridentes vozes contrárias.

Estridência proveniente de que sofre o conhece os rigores do trabalho humano. “Trabalho, que segundo a mitologia, ponos saiu da caixa de Pândora, castigo de Zeus contra Prometeu, «o supliciado», que o havia enganado” conforme Arendt (1983: 41).  O biólogo Maturana desce o mundo empírico e ali verifica (1996: 15) que:

“as relações de trabalho são acordos de produção no quais o é central o produto, não os seres humanos que o produzem. Por isso, as relações de trabalho não são relações sociais. O fato de isso ser dessa maneira, é o que justifica a negação do humano nas relações de trabalho: ser humano numa relação de trabalho ‘es una impertinencia’. O fato de que as relações de trabalho não sejam relações sociais fazem possível a substituição dos trabalhadores humanos por autômatos, e o uso humano no desconhecimento humano, que os trabalhadores que desconhecem essa situação vivenciam como exploração”.

Esta negação do humano, nas relações do trabalho, permite ao governante constituir-se em outro predador e se considerar o onisciente, onipotente, onipresente e eterno destinatário da mais valia do trabalho dos seus governados. Este possui um projeto pessoal dissimulado e que se expressa no FAZER em confronto com o povo, impondo, neste FAZER o “seu” conhecimento, força, vigilância (inteligência) e por tempo indeterminado.  Veríssimo caricaturou (2001: 3) esta situação como:

“o político, uma vez eleito, se sente a salvo em outro país, o Brasil oficial que não deve nada ao Brasil de verdade, muito menos aplicação. Nosso atraso em relação a democracias que funcionam tem a ver com a nossa irresolução histórica – já tem gente na civilização pós-industrial – e nos ainda não fizemos a revolução burguesa”.

A memória desta desqualificação é infensa a qualquer mudança quando colocada no vértice de uma sociedade corrompida no seu cerne. A permanência desta desqualificação é mais forte na medida em que o novo grupo no poder disseminar, na cultura do seu povo, a convicção ingênua de que o FAZER consiste em que “governar é andar a cavalo pela fazenda”. Hannah Arendt percebe (1983: 194/5) que “o processo do fazer é em si mesmo inteiramente determinado pelas categorias do fim e dos meios. O objeto fabricado é um fim neste duplo sentido, que o processo da produção ali se conclui e apenas existe que um único meio  de produzir esse fim” No seu FAZER o novo grupo instaura a tradição de que o espaço do poder é a sua herança e o seu fim. Este  FAZER gera, mantem e reproduz o mito herdado da autoridade e, que, na maioria das vezes acaba apenas “FAZENDO BESTEIRA”. Esta situação propicia a oportunidade da remoção desta pseudo-autoridade do seu cargo e assim oferecer o espetáculo da sua defenestração pública.

De outro lado a origem da palavra “ideia” - mitificada e remetida e enjaulada no mundo da metafísica – possui uma origem e uma etimologia bem prosaica no mudo do FAZER. Arendt explica (1983: 229) que

 “Platão havia emprestada a palavra-chave de sua filosofia, a «ideia», da vida do artesão: antes a percepção da imagem, ou forma (eidos) do futuro produto, depois a organização dos meios e depois a execução Para Platão o artesão possui na sua mente a imagem de uma mesa universal que ele realiza no mundo em objetos diferentes”.

Nas próprias palavras de Platão[31] (1985: 2º vol, 221)

há três espécies de camas: uma que existe na natureza das coisas e da qual podemos afirmar, penso, que Deus é o autor, de contrário quem seria?..-Ninguém mais a meus ver.- A segunda é do marceneiro. –Sim - E a terceira, a do pintor, não é/- Seja Assim, pintor, marceneiro, Deus, são três que presidem a fatura das três espécies de camas

Neste sentido esta concepção de “ideia”, colocada no mundo prático, ganha um vigor reprodutivo intenso. De Masi percebeu esta força no âmbito institucional quando afirmou (1997: 396) que “uma instituição é tanto mais eficiente quanto mais eficiente for a sua ideia”. O mesmo vigor reprodutivo foi percebido também por Chartier quando afirma (1998: 31) que “a instituição colocada no lugar da ideia a faz  desdobrar numa rede de fatos sociais, produzindo milhares de ações e de reações”.

O contrário também é verdadeiro quando esta ideia é pulverizada numa multiplicidade caótica e inerente a aqueles que querem subir simultaneamente ao palco publico e da História. A percepção do seu próprio caos mental e material aumenta diante do olhar do estrangeiro.  Este caos conforme Burke (1997: 7) “manifesta-se na curiosidade pelo estrangeiro gerando a ‘síndrome da periferia”. Síndrome de periferia para quem “interessa apenas à teoria mais recente e estrangeira da qual saltam ‘magos exóticos’ trazidos pela classe dominante” conforme Durand (1989: 107).  Porém na escuridão do fundo poço do caos é possível perceber as estelas. Segundo Foucault (1995: 182) “é possível captar com maior eficácia o poder nos seus extremos do que no centro hegemônico”. O artista e professor Carlos Zílio[32] expõe este índice no caos da periferia. Ele comenta (1997: 239) que:

  “é preciso atentarmos para essa lógica de cultura periférica da Academia Brasileira que não vive, como a europeia, o conforto ideológico direto com a arte moderna. Aqui sobrevivemos de pequenas transformações, desvios incapazes de produzir algo relevante na relação com um processo mais amplo da História da Arte, no entanto importantes para compreendermos o exercício do sensível no nosso âmbito cultural”.                       

Porém esta percepção dos desvios da compreensão no exercício do sensível depende de um projeto ou da vigência de um pacto nacional. Sem este referencial de julgamento continuara a imperar a cacofonia, o ruído e entropia são generalizados quando todos os caciques e coronéis disputam simultaneamente as mentes, os corações e os braços de poucos e exauridos índios da sua plateia.

 

2.07 – MUITO CACIQUE para POUCO ÍNDIO.

 

O número dos contratos necessários para a governabilidade é incalculável. A diversidade do poder, proveniente da base, é um grande problema para um ocupante de um cargo público e portador de um paradigma único, fixo é perpétuo. A arte, de quem quiser governar, é manter dialética entre os extremos e pagar o seu preço. O autêntico líder sempre soube prever estas dificuldade e prover positivamente as eventuais perdas sofridas pelos seus liderados. Almeida Prado[33] descreveu (1955: 367) estas qualidades no autêntico líder como um “regente frente a orquestra de competentes professores é capaz  de transformar os conflitos em estímulos para a idealização e a solidariedade”. Mais recentemente De Masi analisou (1997: 20) “o líder fundador é capaz de uma dedicação heroica à instituição é carismático e competente acima de qualquer expectativa e atento em alimentara a memória e a história do grupo”. Numa análise mais prolongada Wright Mills observou (1975: 410/1) que:

 “duas coisas são necessárias a uma democracia: públicos articulados e informados líderes políticos que, se não á homens de pensamento, sejam pelo menos razoavelmente responsáveis perante o público informado que exista. Somente quando públicos e lideres são responsáveis e de responsabilidade, podem as questões humanas ser submetidas a uma ordem democrática, e somente quando o conhecimento tem importância pública é possível essa ordem. Somente quando o pensamento tem uma base autônoma, independente do poder, mas poderosamente ligada a ele, pode exercer sua força no condicionamento dos assuntos humanos”.

Este autêntico líder em Arte, em Política e em Esporte sabe que não há como pedir perdão pelo erro ou equívoco. Todas estas atividades são provenientes de escolhas humanas cuja fonte é o exercício da autonomia do seu praticante.  Praticante que necessita calcular antes, durante e após o preço (perdas) para manter o bem comum (ganhos) da circulação deste poder político, esportivo ou estético. No cálculo político, de um exercício administrativo, incluem-se numerosos contratos dispares que seguem paradigmas distintos e contraditórios. Os gregos comparavam o exercício administrativo de um governo com a “arte do piloto” (kupernites) que leva a sua nave através de um  estreito vão, formado entre dois perigos de naufrágio. Uma única rota é possível.  Esta rota necessita ser concebida na mente de um comandante solitário ou de um piloto. Ela é de exclusiva responsabilidade deste piloto ou comandante. A fortuna da travessia ou as eventuais tragédias, e as perdas decorrentes, se traduzem em ganhos ou perdas. Elas resultam das deliberações, decisões e escolhas realizadas na “arte do piloto” (kupernites) e autonomia da vontade de um comandante ou de um piloto solitário.

Estes rochedos entre a opinião alheia, petrificada pelo hábito,  e dura realidade da Natureza implacável exige a perícia da “arte do piloto” (kupernites)  para achar a rota entre estas duas muralhas irregulares e cheias de surpresas. O próprio discurso humano e a necessidade de tomar decisões autônomas muitas vezes contrariem os dois lados e exercitam a “arte do piloto” (kupernites) foi percebida Aristóteles (1973: 243.Metafísica II cap. III -3).

a força que possui o hábito, (e q o z ) mostram-no as leis, nas quais o fabuloso e o pueril têm, pela força do hábito, maior poder do que o conhecimento das mesmas. Assim, uns, se alguém não emprega uma linguagem matemática, não aceitam as suas afirmações; outros, se não se serve de exemplos; outros querem tudo rigorosamente [demonstrado] e outros não querem saber de rigor, ou por não o poderem compreender, ou pelo receio do palavreado. O rigor, tem, com efeito, um pouco disto, por forma que se afigura a alguns como menos próprio, quer nos contratos, quer nas discussões.”

Na falta de hierarquia primitiva do bando ninguém manda em ninguém cuja cultura está muito distante dos requintes retóricos e metafísica. A justiça corre livre e solta comandada pelo cânon da ‘vendeta’ na qual uma parte de um dos bandos permite fazer justiça com as próprias mãos. A falta distinções e de hierarquia dispensa qualquer projeto coletivo unívoco e linear do exercício administrativo de um governo com a “arte do piloto” (kupernites). Neste estágio predomina a horizontalidade do poder, e que projeta adiante na administração da tribo antes de se constituir em clã.

Diante desta potencial anormia coletiva, e que qualquer construção artificial pode retornar em qualquer tempo e lugar, graças a entropia a que estão sujeitas. O inglês Thomas Hobbes (1588-1679) percebeu (Leviathan-1651) que “a criatura humana só obedece por dois motivos: 1°- quando  teme que alguém pode tirar algo - ou então -   2° - quando alguém pode dar algo que esta criatura aspira”.

 A violência apontada no “Leviathan” tende a romper a horizontalidade do poder e abre um espaço político para instalar a hierarquia piramidal. É consensual que a origem de todo o poder hierarquizado está em alguma violência.

Hobbes foi buscar o paradigma do seu monstro numa oficina da sua época, pois o “Leviathan” é uma aspiração de um período pré-industrial. O monstro é algo simbólico como o salário, o museu, o proletário e a “mais valia” proveniente do trabalho que pode ser dado e tirado do operário de uma fábrica.

A posse física para usufruto individual não existia na sociedade do coletador e do clã nômade. Tudo pertencia a todos e a propriedade coletiva era sagrada. O velho era um patrimônio coletivo respeitado, ouvido e segui. No período agrícola o poder tornou-se físico e encadeado em linhagens de famílias resultantes da acumulação de riqueza física que não era sagrada. Posse por meio de governos familiares, hereditário e ungidos para tanto e para um período indeterminado. Esta posse tornava-se simbólica, na era da máquina. Simbólica por meio de governos contratuais e eleitos para tanto e para um período determinado. Na era da informática numérica digital esta posse simbólica do poder tornou-se virtual. Virtual por meio de múltiplos e variadas formas, de origens e de fontes de tendências hegemônicas na busca da  autoridade. Bobbio constatou (1997 cad.5. p.4.)[34] que “o velho não é mais aquela pessoa a quem os mais jovens se dirigem para apanhar os primeiros fundamentos do conhecimento essencial que servirão para prosseguir na vida”.  O gradativo acúmulo e a crescente complexidade levam estas energias a um estado crítico no qual é possível praticar distinções culturalmente pertinentes. Neste acúmulo Pierre Bourdieu encontrou (1987: 109) as razões da formação deste estado crítico, pois:

“quanto mais o campo estiver em condições como campo de competição pela legitimidade cultural, tanto mais a produção pode e deve orientar-se para a busca das distinções culturalmente pertinentes em um determinado estágio de um dado campo por serem capazes de fazer existir culturalmente os grupos que os produzem, vale dizer, de conferir-lhes um valor propriamente cultural, atribuir-lhes marcas de distinção (uma especialidade uma maneira, um estilo) reconhecidas pelo campo como culturalmente pertinentes, suscetíveis de serem percebidos e reconhecidas enquanto tais, em função das taxionomias culturais disponíveis em um determinado estágio de um dado campo”.                              

 As energias vivas que buscam um ponto de equilíbrio homeostático das taxionomias culturais disponíveis da autoridade no meio das antigas, atuais e aspirantes ao governo. Aspirantes ao mando e ao poder que intuitiva, ou conscientemente, sabiam o que era e como lidar com a potência. Esta Hannah Arendt conceituou (1983: 260).como aquela que:

 “assegura a existência do domínio público, do espaço potencial da aparência entre os homens agindo e falando. A palavra em si mesma, seu equivalente grego dynamis, como a latina potentia e seus derivados modernos, ou a alemã Macht( que vem de mögen, möglich, e não de machen), indicam o caráter «potencial»”.

Esta potência a ser mantida em homeostase constante entre as forças naturais da reprodução enquanto persistir a vida e os conceitos abstratos de sua origem. Este ponto de equilíbrio também não é possível transferir de um indivíduo para o outro individuo ou grupo social por meio da influência. Salgueiro[35] percebe, mesmo na Arte, e registra (1997: 38) este inconveniente pois:

 “a noção de influência é inadequada para a história cultural das relações artísticas por seu pressuposto autoritário, pelo nível de generalidade de sua aplicação e por partir de fissura teórica básica: a de levar em conta as condições que operam as relações entre A e B.”

A presente fase da busca de um ponto de equilíbrio homeostático de autoridade no meio das antigas, atuais e aspirantes ao governo faz lembrar a frase “MUITO CACIQUE para POUCO ÍNDIO”. Porém a diferença da organização do poder indígena, encontrado pelo colono europeu, é que na nova era da informática numérica digital, também é possível aglutinação das vontades humanas individuais diferentes entre si mesmas numa multiplicidade espantosa e ao mesmo tempo fazer circular o mesmo poder nacional ou continental. Esta espantosa aglutinação da multiplicidade numa unidade é possível, mesmo que ela dure apenas por quinze minutos. Na sua matriz conceitual de origem colaboram as mentalidades coerentes com os avanços da física, matemática e a tecnologia proveniente da relatividade e da quântica. Nesta matriz conceitual é necessário ficar explicito no contrato entre governantes e governados que - este tempo da relatividade e da quântica - não é mais o mesmo do clã, da família ou da linha de montagem. Contudo o perigo da anomia coletiva decorre da crescente fragmentação do mundo do trabalho à semelhança do que ocorre no mundo cultural pela multiplicação incontrolável de EGOS cujos caprichos necessitam serem satisfeitos muito antes do bem coletivo. Fragmentação acelerada pelo numero imponderável de caciques e de coronéis de sindicatos que se multiplicam sem a mínima logica de e respeito pelo Poder Originário de suas bases.

Como a humanidade encontra-se atualmente neste novo processo é difícil prever a sua futura forma. Mas na concepção da “noosfera” de Pierre Teilhard de Jardin (1881-1955)[36] a humanidade toma consistência cada vez mais profunda e que se manifesta nos ambientes que dependem, cada vez mais, desta consciência.

A ação humana, comandada pela sua consciência, está apenas iniciando o seu processo transformador. Evidente que se contorna a figura do profeta que surpreende a todos ao instaurar uma revelação nova e  original. Profeta que para Giulio Argan (1992: 39) dialoga com “o divino é a nascente do poder. Para que as verdades supremas sejam obedecidas deve materializá-las em sinais e figuras”.  Sinais e figuras reproduzidas pelo sacerdote que assim mantém a revelações se constitui em ministro das verdades supremas.

Porém esta ação humana - consciente e determinante, em todos os ambientes e em mudanças permanentes. - ainda está muito longe de ser portadora da potência que carrega o ar, a água e a biosfera.

 

 2.08 - UTOPIAS GENERALISTAS como CONTRATOS SOCIAIS OCULTOS.

 

A passagem da era industrial para a era da informação foi precedida por grandes projeções escapistas provenientes da realidade concreta do mundo da linha de montagem fixa e contínua e que foi a estimuladora e produtora de numerosas utopias dos séculos XIX e XX. O ritmo das máquinas fumegantes da era industrial abrigou, alimentou e deu condições de reprodução para imensas massas humanas. Estas saíram do meio rural e se acumularam no meio urbano. Esta transumância do mundo humano foi realizada sem contrato social ou ocultaram muitas das suas reais condições. O lugar vago destes contratos foi cenário para a proliferação de projeções escapistas. Estas projeções tomaram corpo das matrizes derivadas das concepções positivistas, comunistas, capitalistas e existencialistas que tentaram evidenciar e administrar o contrato oculto ou inexistente. As projeções derivadas das matrizes socialistas, anarquistas, nazistas e fascistas criaram uma anomia social política e econômica. No centro de cada uma delas residia o projeto subliminar da eficiência. Este projeto de eficiência, quando passou a reger os contratos no mundo prático, tornou-se imediatamente totalitária. O teórico que Greenberg percebeu e descreveu (1996: 49) a força implacável da eficiência que “no momento em que se aceita como valor absoluto a eficiência, nunca se é eficiente de forma absoluta como nunca se é absolutamente virtuosos, passando a infernar e pesar como um sentimento de culpa”.  Esta implacável busca pela eficiência percebeu rapidamente o seu limite se continuasse presa ao relógio e à linha de montagem. Constrangidos os mediadores ou atravessadores do poder, mitificaram os formuladores originais e os levaram aos museus e sem deixar de transformá-los simultaneamente em “culpados de tudo” como os “grandes tiranos” de sempre.

Esta mitificação de eficiência foi para as imensas telas dos templos do cinema e que projetavam a cultura da primeira era industrial. Estes templos foram apenas um dos índices e uma das projeções deste escapismo de uma anormia generalizada e capitalizações da impossível eficiência total. A emoção pública e coletiva do cinema destinava-se a fazer com que a mente do proletário entrasse em sintonia com a era industrial. Esta lhe extraia a mais valia e mesmo tempo lhe impunha uma consciência coletiva e de hábitos uniforme para o consume de produtos múltiplos absolutamente iguais entre si.

Na relação indústria com a arte, Pierre Bourdieu, registrou (1987: 104) “com a era industrial modifica-se a relação entre artista e público. Arte e artista separam-se como ‘obra prima’ e ‘gênio’”. A indústria cultural, segundo Williams (in Bourdieu, 1987: 104), iniciou:

 “na Inglaterra com a vinda da era industrial, a relação entre artistas e o público modifica-se, o público é tratado de uma forma diferente em relação a era do artesanato, a produção artística torna-se uma entre as especializadas, a teoria da realidade superior da Arte e o artista independente e um «gênio superior»”.

Nesta interação indústria e arte Gleizal especifica (1994: 47) uma clivagem e o nascimento de algo novo, pois: “é necessário situar efetivamente a arte na fronteira do que a caracteriza e da indústria. A arte torna-se um processo sobre o qual é necessário refletir. Ela aparece indissociável de uma epistemologia da criação”. Na medida em que a Arte avança para a “epistemologia da criação” a industrial, por sua vez, se projeta rumo ao espetáculo e produtos em séries. Este espetáculo e produtos em séries desta deram lugar para a nova infraestrutura e perceptível na rede eletrônica nacional de circuito de televisão aberta e coletiva com receptores domésticos individuais da tela.

Com o início da era da informática numérica digital, o PC (Personal Computer) passou para a tela individual conectado com a grande rede mundial. Nenhuma das grandes utopias ideológicas deixou de usar, ou escapou, desta infraestrutura cultural.  O cinema da Índia é exemplar numa cultura à margem do capitalismo clássico mas que se limitou a um repertório industrial uniforme nacional.

Os objetivos industriais buscam ocultar desesperadamente este sentido do contrato, sem revelar, às massas urbanas acumuladas, as suas verdadeiras intenções. As repercussões e os retornos pessoais e individuais a esta mensagens são ocultadas e veladas na medida em que o sistema industrial incentiva o culto um EU vazio e desprovido de sentido, além do limite da mais valia do potencial trabalho que este EU poderá oferecer à era industrial.

Estes contratos sociais ocultos necessitam do conhecimento, do desvelamento além de sua desmontagem imediata, pois são provenientes das grandes utopias dos séculos XIX e XX e arrastam os seus praticantes de volta no tempo. O conhecimento dos contratos sociais ocultos é proveniente, não só de sua história, mas das cinzas e das dores do presente. As cinzas e dores do presente, causadas pela sua queima de etapas e pelas frustrações, são simétricas com as esperanças que causaram quando eram meras utopias. Porém a imanência, representada por estas cinzas, não se completa na sua materialidade. Cinzas podem ser índices de um fogo já extinto e signo de um passado queimado. Ferrater Mora descreveu esta distinção ao afirmar (1994: 1.846) que “o materialismo não se confunde e não esgota o conceito de imanência. Posso designar de imanente um sistema que se funda no fato da experiência religiosa interna predominar sobre o discursivo”.

Não há como esperar a repetição da História. Ela só realiza este retorno como uma farsa. A busca para distinguir a realidade das aparências é uma das suas metas de toda Ciência, Arte e Politica, coerentes com suas forças que as sustentam. Esta disposição geral foi evidenciada por Schiller quando escreveu (1963: 123/4) que:

 “o direito humano de domínio ele o exerce na arte da aparência, e quanto mais severo for no distinguir entre o ‘meu’ e o ‘seu’, quanto mais carinho puser em separar a forma do ser, quanto mais autonomia der a ela, tanto mais chegará não só a ampliar o reino da beleza, mas a preservar também os limites da verdade; pois é impossível purificar a aparência dos resíduos de realidade sem libertar, ao mesmo tempo, a realidade das aparências”

Esta busca para distinguir a realidade das aparências está presente no universo das forças dos campos da Política, da Educação, da Religião, da Justiça, do Comércio e da Indústria cultural. As aparências escamoteiam e escondem-se em eventos pontuais avaliações e macro-análises favoráveis à natureza das grandes utopias dos séculos XIX e XX e sem que estas tenham muito claros e objetivos dos projetos que lhes deram origem e pelas quais buscam se reproduzir. Este conhecimento superficial das grandes utopias dos séculos XIX e XX é realizado “por cima e por fora” e logo naturalizado. A seguir é descartado para o mundo da obsolescência programada industrial.

A célula artificial do município contraria esta análise, “por cima e por fora” e sua imediata naturalização e o subsequente descarte. Não se ignora a sua minúsculo energia e nem as desqualificações e as manipulações do poder originário que ali ocorrem. A célula municipal é o lugar de origem deste conhecimento para chegar à célula do pátrio poder mesmo com todas as fragilidades e contradições que ali ocorrem e são visíveis a todos. Admitir a sua corrupção é admitir uma potencial metástase deste mal para atingir, como um câncer, todo o organismo nacional. Não se nega a análise mais fina na micro economia e nas circulações das riquezas, seu controle e acúmulo[37]. Os bancos e de pequenas economias, das células municipais podem ser conectados, com as macro estruturas de conglomerados econômicos, preservando, aumentado e reproduzindo  a sua inteligência, a sua vontade e a sua transparência ética.

 

 

 

 

2.09 – A SENHA de IDENTIDADE CIDADÃ.

 

Na atual e incipiente era digital numérica um cidadão se perde, se atrapalha é assim é escondido, afugentado e desqualificado muito mais do que é qualificado, atraído e evidenciado. Nela viceja um matagal e um cipoal de senhas, de procedimentos e de mediadores.  Atravessadores necessários que mais escondem e atrapalham a cidadania do que a ajuda no seu exercício eficaz da cidadania. Isto sem entrar no terreno do crime que se instala neste âmbito carente de identidade, cidadania e de um código de ética celebrado num contrato legal único e público entre provedores e usuários

  A cidadania está migrando lenta e seguramente para o âmbito desta nova era digital no âmbito dos cartórios, dos tribunais e da vida publica. Os documentos de ingresso, circulação e de avaliação, originários destas instâncias, seguem coerentes com este mesmo caminho. A antiga carteira de identidade da era industrial está mesmo caminho, mas esta ainda muito distante dos cartões eletrônicos dos bancos, do comércio e da comunicação numérica digital. Neste vácuo é possível pensar, propor e implementar um projeto que lenta e seguramente racionaliza o acesso, a circulação e de avaliação  do contrato entre o cidadão e o Estado. Este contrato pode se expressar num cartão eletrônico que contenha série de senhas que ajudem, este cidadão,  a viver e a circular no âmbito local, nacional e internacional. Evidente que este cartão da cidadania possui outra natureza e finalidades do que um cartão eletrônico dos bancos, do comércio e da comunicação numérica digital. Especialmente pensando para o trânsito do cidadão nas três instâncias administrativas [município, estado e nação] além de ser aceito e circular no âmbito dos três clássicos poderes da administração destas instâncias.

O exercício da cidadania pode avançar significativamente graças à atual disponibilidade de informações numéricas digitais. A era industrial  possibilitava fizer apenas a pergunta estatística “quantas pessoas estavam doentes” e quantificar, a assistência do Estado,  apenas genericamente. Atualmente é possível perguntar “- quem está doente e quais os sintomas” e responder,  especificamente, para quem necessita da assistência do Estado, em que hora e que lugar ele poderá ser atendido.

Na medida em que o projeto e as intenções do Estado forem para “estar atento e poder ajudar” aquele que precisa de fato dele, se afastará o fantasma do “Big Brother” não será uma fatalidade e atento para “vigiar e punir”. Instituições, governos e estados interagem positivamente para ajudar aos cidadãos se orientar quando esta atenção  é coerente com a cidadania e tiver a sua fonte no Poder Originário.

Esta coerência e esta fonte ser continuada se o portador de uma série de chips numérico-digitais tiver a posse, de sua parte, uma chave para conferir tudo aquilo que um governo, estado ou outra entidade legal possui para identificá-lo. O cartão que se está colocando como ideal será aquele que tiver a cidadania, o viver e o circular no âmbito local, nacional e internacional definido num contrato. Este contrato certamente necessitará mais de um único chip num cartão. Pensa-se  num único cartão que contenha múltiplos chips de identidade da era da informação numérica digital. Chips competentes para a  inter-conectibilidade virtual com a rede e direcionada para diversas bases de dados sobre o seu portador e disponíveis em arquivos virtuais.

Este cartão pode realizar múltiplas conexões do seu portador por meio de chaves [senhas] para distintos campos de arquivos virtuais. No lado contrário quem acessa estas informações deixa abundantes e claros índices desta busca de informações que realiza em relação ao cidadão. Evidente que este tipo de acesso será publica e inteiramente reversível e acessível ao cidadão que foi objeto desta busca. Esta busca e acesso aos bancos de informações simultâneas ou lineares sobre a pessoa do seu portador, seus domicílios familiares, trabalho, eleitoral, jurídico, de saúde, de educação, de financeiro, impostos, resguardando-se e regulando-se por um contrato preliminar. No momento o seu portador pode realizar este acesso por meio de códigos de barra, em campos magnéticos com chaves de competências próprias dos distintos campos de arquivos virtuais. No futuro certamente haverá outros suportes, circulação, arquivo e recuperação de dados.

Na chave de identificação das conexões de cidadania podem estar dispostos os campos de arquivos virtuais do seu portador. Os acessos,  a estes arquivos virtuais, podem serem realizados nas conexões com registro comutável como o domicílio, CEP, região eleitoral, identidade, CIC, impostos, folhas corridas, profissão, propriedades.

No meio da carteira estarão os quadros fixos e não regraváveis, constituindo as chaves contendo as conexões de identidade pessoal acessível por meio da senha numérica digital.  Neles poderá constar o nome usual, as conexões com o registro do nascimento, filiação com a identificação das identidades dos pais biológicos, grupo sanguíneo, código da íris dos olhos, digitais...

As CONEXÕES com SERVIÇOS do ESTADO estão dispostas na chave inferior em quadros regraváveis e controláveis contendo informações sobre os serviços de saúde, de educação (currículo), de economia, de carteira de trabalho.

 

 

 

               
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

SENHAS de CONEXÔES da CIDADANIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONEXÕES de IDENTIFICAÇÃO PESSOAL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONEXÕES com SERVIÇOS do ESTADO

 

 

 

 

 

 

Gráfico 04 – Estrutura (sem escala) da carteira cidadãs com múltiplos chips para conexões.

 

As leituras podem ser realizadas no sentido horizontal ou vertical. O leitor ótico seleciona o chip do campo solicitado. A sua função é tanto de leitura como de conexões. A leitura destes chips refere-se à faixa central onde constam os dados pessoais. A faixa horizontal superior e a inferior realizam as conexões com os arquivos nos quais constam informações sobre a cidadania e os serviços prestados pelo Estado nacional, regional e municipal. Para as competentes gravações e fiscalizações serão habilitados e contratados os cartórios, hospitais, escolas, instituições correcionais e civis. Nestes haverá alguém legitimado e inteiramente identificável para realizar os acessos e deixar registrado todos os dados deste acesso.

A célula municipal poderá ser convocada também para numa franquia do IBGE, constituir o seu próprio BANCO de DADOS com terminais e conexões e redes contratadas e criptografada para a segurança de a fidelidade dos dados. O IBGE poderá se dedicar a toda nação brasileira e a implementação de BANCOS de DADOS ESTADUAIS e REGIONAIS. Evidente as competências e os limites será determinados pelo legislativo lhe determinar.  Os contratos serão  acompanhados dentro da lei pelo judiciário.

A prudência, a segurança e a legalidade recomendam que esta macro-estrutura não poderá ser implantada de uma única vez e por decreto. A constituição, destes BANCOS de DADOS, poderá ser implementada em células MUNICIPAIS nas quais esta cultura estiver mais adiantada e que servirão, se eficientes, para referencial da sua disseminação gradativa  por todo território nacional naquelas células que julgam aptas e competentes para manter os seu BANCOS de DADOS MUNICIPAIS e sua conexão, em tempo real e contínuo, com o IBGE ou outra instituição congênere.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1]  - FACCIONI, Victor «Uma oportunidade na educação» Correio do Povo, Porto Alegre, ano 98, n° 137, 14.02.1993

 

[2] - PEVSNER, Nikolaus. Las academias de arte: pasado y presente. Madrid : Cátedra. 1982. 252p. – (edição brasileira - Academias de Arte: passado e presente. São Paulo, Companhia das Letras, 2005). 

 

[3] - MAZZOCUT-MIS, Madalena, « Pouvoir et limites de l´imagination» in Revue   d´esthétique : Esthétique en Chantier. Paris :Jean Micel Place v.24, nº 93, jun. 1994, pp. 59/64.

 

[4] - GRESPAN, Jorge. «A ineficácia da dialética: Habermas, a esquerda deveria pensar  construtivamente»´ Folha de São Paulo, São Paulo, ano 77, nº 25.043, 1997, cad. 5, p. 8,

 

[5] - BURKE, Peter.« Primeiras impressões de um inglês no Brasil» Folha de São Paulo: São Paulo, ano 77, nº 25.106,  28.12. 1997,  cad. 5,  pp.6/7.

 

[6]  - Aristóteles: Ver TÓPICOS-Penúltimo aforismo – disponível em  . http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000069.pdf

 

[7] - LOPES FILHO, Osíris «Cair na real» Folha de São Paulo, ano 76, n° 24.448, 10.03.1996, 2° ca, p. 02

 

[8] - SALOMÃO Marcos Fagundes “A escravidão ainda ronda o Brasil”. Porto Alegre:  Zero Hora, nº 15.760, 16.10.2008, p. 23

 

[9]  - BARRIONUEVO, José   “Combater o corporativismo, o clientelismo e a corrupção endêmica” in «Rosseto propõe o modelo gaúcho para o país».  In Zero Hora, Porto Alegre, ano 38, n° 13.200, 11.10.2001, p. 24.

 

[10]  - FREITAS, Décio et alli, RS:Cultura & Ideologia. (2a ed) Porto Alegre : Mercado Aberto,  1996. 167p.

 

[11] - GOMES, Roberto. Crítica da razão tupiniquim. Porto Alegre: Movimento /UFRGS,    1979, 104p.

 

 

[12] - Fórum Social Mundial - http://www.forumsocialmundial.org.br/

[13] DE DUVE, Thierry «Kant depois de Duchamp» Arte & Ensaios Revista do Mestrado em  História da Arte da EBA. Rio de Janeiro : EBA-UFRJ Ano 5, no 5, pp.125-154, 1998.

 

[14]  - HEIDEGGER, Martin (189-1976) Origem da obra de arte. Lisboa: Edições 70,  1992.  73 p

[16]REGUERA, Isidoro. El Feliz absurdo de la ética (El Wittgenstein Místico). Madrid:   Technos, 1994. 270p.

 

[17] - BOURDIEU, Pierre ( *1.8.1930 - †23.1.2002)  O poder simbólico.   Lisboa : DIFEL, 1989.  311p

[18]   - A modelagem numérica digital produz o criativo, o complexo e o único mas reproduzível em série infinita

http://www.foundmyself.com/Philipp+Langer/art/solidified-mercury/103658#

http://www.wohlersassociates.com/2012report.htm

 

[19] - NASSIF, Luis “A última palavra de mercado de consumo é proporcionar atendimento quase personalizado ao consumidor, mesmo em produtos de massa”  .  «O exemplo de Porto Alegre» in. Folha de São Paulo, São Paulo, ano 74, n° 23.769, 01.05.1994, 2° cad. P. 03.

 

[20] - WORRINGER,  Wilhelm (1881-1965).  Abstraccion y naturaleza.  (1ª.ed. 1908).  México:  Fondo de Cultura Econômica, 1953. 137p.

 

[21] PASANEN, Kimmo, « L´Art et les jeux de langage chez Wittgenstein» in. Revue  d´esthetique.: Esthétique en  chantier.  Paris : Jean Michel Place, v.24, nº 93 . Jun. 1994, pp. 49/54.

 

[22]  - NASSIF, Luis  «O fim dos estados» in. Folha de São Paulo, São Paulo, ano 77, n° 26.098, 27.12.1997, 2° cad. P. 03

         KERN, Luiz Augusto Fundo de Participação dos Estados [FPE]: Estados veem ‘fim do mundo’ Correio do Povo: Porto Alegre, ano 118 nº 96, 04 de janeiro 2013 p. 4 

 

[23] CACO COELHOArte de participar Porto Alegre: Correio do Povo  -Ano 117, nº 232 - sábado, 19 de maio de 2012  Arte & Agenda Crônicas da Cena

 

 

[24]   GENOINO constrange  - Zero Hora – Porto Alegre 03/01/2013 | 17h01 Suplente José Genoino toma posse na Câmara e diz que se sente "confortável" "Estou seguindo as normas da democracia e da Constituição do meu país", disse o petista, condenado pelo STF

 http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/politica/noticia/2013/01/jose-genoino-toma-posse-na-camara-e-diz-que-se-sente-confortavel-3999960.html

 

[25] - Correio do Povo  «Uma oposição verdadeira» Porto Alegre:  Correio do Povo, , ano 104, n° 035, 04..11.1998 , p. 8  -Editorial

 

[26] OPPITZ TalineTRABALHO ESCRAVO no RIO GRANDE do SUL em 2012 Porto Alegre: Correio do Povo, Ano 117 Nº 226 domingo 13 de maio de 2012 p. 04

[27]   OLIVEIRA LIMA, Lauro. Os mecanismos da liberdade: microfisilogia . São Paulo:   Polis,  S/d.  376 p.

 

[28] - Correio do PovoAs mudanças no Brasil irão acontecer através do poder local”in Lerner vai ensinar prefeitos a governar Correio do Povo : Porto Alegre, ano 97, n. 91 30.12.1991 -p. 02

 

[29] BUZZAR, Miguel Antônio «Lúcio Costa, a ENBA e a arquitetura moderna Brasileira» in 180 anos de Escola de Belas Artes, Anais do Seminário EBA 180. Rio de Janeiro : UFRJ, 1997. 397/409

[30] - BERNHARD, Thomas (1931-1989) – O Sobrinho de Wittgenstein – Tradução de José A. Palma Caetano . Rio de Janeiro : Assírio &Alvin, 2.000 -ISBN: 972-37-0603-2                              http://profciriosimon.blogspot.com.br/2009/11/premio-em-cima-de-01_30.html

 

[31] - PLATÃO ( 427-347) – A REPÚBLICA – Tradução di J. Guinsburg  2º volume . São Paulo : Difusão Europeia do Livro, 1985, 281 p.

                     http://pt.scribd.com/doc/28055175/Platao-A-Republica-Vol-II-Do-V-ao-X-livro

[32] ZÍLIO, Carlos. «Formação do artista Plástico no Brasil». Arte & Ensaios : revista de  História da Arte. Rio de Janeiro : UFRJ, Ano 1, nº 1. pp.25-32 1º semestre 1994.

[33]  ALMEIDA PRADO, J. F. Tomas Ender. São Paulo : Melhoramentos, 1955. p.383.

 

[34] BOBBIO, Norberto, «Os nervos do pensamento» Folha de São Paulo, São Paulo, ano  77, nº 24.434, 12.01.1997. cad. 5. p.4.

 

[35]SALGUEIRO, Heliana Angotti. «Grandjean de Montigny, Caminhoá, Magalhães e Morales de los Rios : trajetórias e modalidades de apriopriação dos sistema da École des Beaux-Arts de Paris» in 180 anos de Escola de Belas Artes. Anais do Seminário EBA 180. Rio de Janeiro : UFRJ, 1997.  pp. 37/46.

 

[36] CHARDIN, Pierre Teilhard de (1881-1955). O Fenómeno Humano.  Porto Alegre: Tavares Martins, 1970. 355p.

This biosphere, this advancing network of life, has thus far resulted in the culminating development of man. With the advent of man, Teilhard believes that cosmic evolution has finally become conscious of itself...at least on this planet, which is woven into the cosmic whole. Teilhard opines that the destiny of man is to culminate into a consciousness of the species.

This consciousness of mankind will ultimately become the "thinking layer of the earth," which Teilhard calls the *noosphere.*

Cosmic evolution will not cease with the noosphere. Teilhard does not consider the human species to be the epitome of the universe; rather, he believes that Nature provides us with yet another evolutionary opening...that of a "super-soul above our souls." The whole "gigantic psycho-biological operation" of cosmic evolution points toward a "mega-synthesis" of all the thinking elements of the earth forcing an entree into the realm of the super-human” in http://www.bizcharts.com.br/stoa  15.08.2006.

Ce mot, que Pierre Teilhard de Chardin emprunte à Vernadsky, part de l'observation qu'une pellicule de faible épaisseur (quelques kilomètres) entourant la Terre - qu'on comparerait presque aujourd'hui à un biofilm - contient à la fois toutes les connaissances de l'humanité et toute sa capacité de traitement de l'information.

La noosphère se juxtapose à la lithosphère (la masse inerte), la biosphère (la masse vivante) et à la sociosphère (ensemble des relations humaines et/ou écologiques) et l'ensemble de l'activité intellectuelle de la Terre : il s'agit d'une sorte de « conscience collective de l'humanité » qui regroupe toutes les activités cérébrales et mécaniques de mémorisation et de traitement de l'information.” http://fr.wikipedia.org/wiki/noosph  em 15.08.2006

 

 

[37]  Correio do Povo «SARANDI: cidade consegue  empregar todos os seus trabalhadores» in Correio do Povo, ano 99, n° 227, 15.05.1994, p. 14.